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Paisagens Sertanejas / Nordestinas

Povo de memória curta... A história centenária de Glória/BA não pode ficar debaixo d`água.

É preciso resgatar a história e a memória e manter vivas as raízes seculares deste lugar!

Publicada em 21/08/21 às 22:07h - 1696visualizações

por Antônio Galdino


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 (Foto: Antônio Galdino e acervo do autor)

Leio, com redobrada atenção, o desabafo de uma pessoa que nasceu no Povoado Barra, pertencente ao município de Glória e hoje, há muitos anos mora na Alemanha e agora, quando decidiu escrever a sua autobiografia, se ressente da falta de registros históricos sobre o seu lugar de nascimento, de onde vieram importantes personagens para construir a história de Paulo Afonso.

De fato, é triste a falta de cuidado, especialmente dos gestores municipais, mas também de empresários, moradores mais antigos, estudantes universitários dos dias atuais, em se manter viva a história e a memória de um lugar.

O município de Glória, na Bahia, foi atingido por duas barragens, Moxotó e Itaparica, sendo a primeira a que provocou maior impacto no seu território, inundando povoados, dentre eles o Povoado Barra e a antiga sede do Município.

Márcia Pereira dos Santos nasceu no Povoado Barra e nada encontra de registro sobre o lugar onde nasceu. Ela é neta do ex-vereador Amâncio Pereira dos Santos que teve um papel importante no processo da emancipação política de Paulo Afonso, como um dos quatro vereadores que em 1954 foram eleitos pelo então Distrito de Paulo Afonso para a Câmara Municipal de Glória onde, em 10 de outubro de 1956, foi realizada a sessão que aprovou esse projeto de emancipação política. E o voto do vereador Amâncio Pereira foi decisivo para isso.

Essa falta de cuidados com as nossas raízes, muitas vezes seculares, de fato dói muito naqueles que gostariam de ver conhecidas, preservadas, a história, a cultura dos seus antepassados que deram vida àquele lugar por um período de tempo.

Senti a falta dessas histórias, no tocante a Paulo Afonso, quando precisei falar sobre o município aos meus alunos. Não havia nenhuma publicação sobre o município. Precisei criar, primeiro uma Revista chamada Paulo Afonso, Redenção do Nordeste, em 1981. Depois veio o primeiro livro – De Pouso de Boiadas a Redenção do Nordeste, em 1995. Hoje já são seis livros outras tantas revistas de minha autoria. E apareceram outros escritores nesses anos. Que apareçam outros muitos porque ainda há muitas histórias para serem contadas. De Paulo Afonso, de Glória, dessa região...

Quando coordenei a nível regional um projeto de resgate da história e da memória de dezenas de municípios da região de Paulo Afonso, nada encontrei sobre a história tão rica de Glória. Mas o foco central era o turismo e seu potencial.

Esse projeto dirigido pelo Sebrae de Pernambuco a pedido do Dr. João Paulo Maranhão Aguiar que era, na época, assessor do presidente da Chesf, tinha por objetivo levantar a história, a memória, os costumes e, sobretudo, os atrativos turísticos que pudessem levar cada um dos 28 municípios pesquisados para o centro de um projeto regional de turismo na região dos Lagos e Cânions do São Francisco.

As equipes que atuavam em cada município eram formadas por geógrafos, arquitetos e historiadores e foi deixado com cada prefeito que era entrevistado um elenco de sugestões, especialmente para a valorização e resgate da história e da memória de cada um desses lugares.

A equipe coordenada por mim esteve nos municípios de Paulo Afonso, Glória e Santa Brígida, na Bahia, Delmiro Gouveia, Água Branca e Olho D´Água do Casado, em Alagoas e em Petrolândia, Jatobá e Tacaratu em Pernambuco.

Esse trabalho, que durou meses porque outras equipes atuavam nos outros 19 municípios dos estados da Bahia, Alagoas, Pernambuco e Sergipe, foi realizado nos de 1997 e 1998 e resultou em um relatório chamado Região dos Lagos do Rio São Francisco – Potencial Turístico: uma oportunidade de negócios, entregue a todos os prefeitos dos municípios pesquisados, nos formatos de livro, fartamente ilustrado com fotos e mapas em cores e também no formato de DVD para que cada um desses municípios trabalhassem esse conteúdo, inclusive com a recuperação e revitalização do potencial identificado pelos especialistas.

A coordenação geral do projeto, no Recife se declarou boquiaberta em face de tão rico patrimônio encontrado e não valorizado pelos moradores da região pesquisada e, principalmente pelos prefeitos e vereadores entrevistados.

No tocante ao município de Glória, cuja história se inicia há séculos, não se tem notícia, ainda hoje, mais de 20 anos depois desse relatório, de qualquer ação efetiva do resgate dessa rica memória e de sua história em livros ou qualquer outro formato disponibilizado para conhecimento de todos, especialmente dos seus estudantes.

O Povoado Barra, durante muitas décadas, tornou-se o centro da vida do município de Glória, município de características rurais ainda hoje.

O município de Paulo Afonso, herdou boa parte do extenso território de Glória, cujas terras se estendiam até a divisa com Jeremoabo, outro centenário município da região ao sul e ao norte ia tão longe que dele se originaram vários outros municípios.

E, além do Vereador Amâncio Pereira dos Santos, o município de Paulo Afonso teve dois prefeitos, filhos do Povoado Barra: Manoel Pereira Neto, que foi vereador por muitos anos e assumiu a Prefeitura de Paulo Afonso (14/09/1966-31/12/1966) quando era Presidente da Câmara de Paulo Afonso – na época não havia o cargo de vice-prefeito – substituindo exatamente o seu conterrâneo, Adauto Pereira de Souza que foi o segundo prefeito de Paulo Afonso, de 07/04/1963-14/09/1966 e também nasceu no Povoado Barra.

Este caso de Barra, cuja história e memória os glorienses, principalmente estes, deveriam resgatar, é apenas um dos muitos que precisam ganhar vida, como orgulho de ter contribuído, pela vida dos seus filhos, com a construção da história do próprio município de tão grande importância para esta região.

Quando se fez o trabalho citado para o Sebrae no final do século passado, tanto o Povoado Barra quanto a Glória Velha, suas relíquias históricas, o lugar onde já dormiam seus ancestrais, há mais de um século, tudo dormia debaixo das águas da Barragem de Moxotó.

Terras férteis, os imensos coqueirais do Sr. José Ferreira e, especialmente as marcas históricas da antiga Curral dos Bois, de Santo Antônio da Glória estavam para sempre debaixo d`água e o que se tem de registro daqueles primeiros tempos, do importante entreposto comercial cujas origens remontam aos domínios de Garcia D´Ávila, há séculos?

É preciso, muito importante, imperioso mesmo, que as famílias mais antigas reúnam informações, documentos de época, histórias que ouviram das gerações anteriores e, sobretudo os gestores dos municípios, se dêem conta da necessidade de se resgatar as suas origens para que as gerações futuras, como é o caso de Márcia Pereira dos Santos, não se sintam órfãos desse conhecimento para que possam se orgulhar, mais ainda destas suas raízes pioneiras.

Sempre é bom lembrar dos versos de Olavo Bilac em seu poema A Pátria em que diz:

“Ama com fé e orgulho a terra em que nascestes.

Criança, não verás país como este”.

Se não resgatarmos as histórias e as memórias de um lugar, para torna-lo “visível”, conhecido das atuais gerações, quando abandonamos o nosso passado, as nossas raízes, estaremos deixando que a nossa memória se encurte, fique pequena e é como se todo um passado glorioso devesse permanecer, para sempre, debaixo das muitas águas.

Não! Tudo isso, toda a história, todas as memórias, precisam ressurgir do fundo das águas para mostrar ao mundo moderno quão bela e importante é a história desse lugar.

As fotos que ilustram esse texto foram feitas por mim no final de dezembro de 1974, mais ou menos uma semana antes das muitas águas, 1 bilhão e 200 milhões de metros cúbicos de água, começarem a encobrir esses prédios históricos, essas ruas, essa paisagem centenária. Segundo a revista Chesf 50 anos, publicada pela hidrelétrica do São Francisco, a conclusão da construção da nova cidade de Glória, para abrigar os moradores da antiga Glória e do Povoado Barra, aconteceu no final de 1974. O enchimento do reservatório de Moxotó foi concluído em Maio de 1975. (Chesf, revista 50 anos, pág. 129).

Em janeiro de 1975, confirmam Nido de Dodô, Manoel Rozendo e Pedro Reis, aconteceu a mudança da população. Parte dos moradores que não aceitaram morar na nova cidade ficaram no Povoado Quixaba, mais próximo da antiga sede do município de Glória.

Agrademos a todos e também a Ricardo Pereira e Flávio Motta, pelo apoio.

Concluo deixando essa pergunta: em que pensava essa criança olhando este cenário que logo seria encoberto pelas águas da barragem de Moxotó?

Antônio Galdino da Silva

Paulo Afonso, 21/08/21




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8 comentários


Geraldo C. de Carvalho

25/08/2021 - 14:40:20

Quando eu tinha 15 anos, em 1970, fui à velha Glória e conheci sr. Rui, pai de dr. Chico, Paulo, Rita e Mourão; a família de minha ex-colega Julieta,do Ginásio Sete; na Barra, Elivar Pereira, ex-colega do Colepa e primo do finado Adauto Pereira de Souza, e me lembro que teria que passar pela Tapera, antes de chegar em Glória. Por que não é citada a Tapera, quando o assunto é a história de Glória?


Leitor

24/08/2021 - 12:08:44

Sugestão: alguém poderia identificar o garoto da última foto???


Professor Galdino

24/08/2021 - 10:07:09

Caros amigos.Ao escrever sobre esse tema, a quem dediquei um capítulo chamado De Volta às Origens, do livro De Forquilha a Paulo Afonso – Histórias e Memórias de Pioneiros (Editora Fonte Viva/Paulo Afonso – 2014) não imaginei que ele tomasse a proporção que tomou. O que é excelente! Sobre esse conteúdo que, em pouco mais de 48 horas já teve mais de 700 acessos e tem gerado, além dos comentários na matéria, muitos outros comentários que chegam via Whatsapp, respondi assim, a um comentário de apoio que recebi:Na verdade, eu nem me refiro aos aspectos políticos mais recentes mas, sobre toda a história de Glória, desde o começo da povoação desse lugar. Dos tempos de Garcia D' Àvila, dos índios, dos bandeirantes, dos catequistas, de Dionísio Pereira e de outros do passado... Falo desse resgate histórico e claro que também da história política. Das famílias pioneiras e tradicionais. Da noite dos filhos ausentes... Da importância do rio São Francisco para a história do município. Do pouso de boiadas. Do entreposto comercial importante. De Glória ser o caminho de passagem de quem chegava em busca de emprego na Chesf, naquelas balsas enormes... Como pode ver, há muitas histórias, muitas... E o ideal é que um filho da terra, um descendente dessas famílias que começaram tudo, conte essas histórias, resgate tudo isso.A reclamação da Márcia faz sentido, sim. De fato, nenhum de nós é um ponto perdido no espaço. Nossas vidas estão entrelaçadas com as vidas do passado, de nossas origens e isso não pode, literalmente, ficar debaixo d´água.É um absurdo que cidades centenárias como Glória, Jeremoabo, Petrolândia, Piranhas e outras dessa região não mostrem sua história, suas origens para o mundo.De Petrolândia, sei que há alguns livros e o Instituto Geográfico e Histórico de lá está empenhado nesse resgate. De Glória, infelizmente, não sei se existe qualquer movimento nesse sentido... O que é uma pena.Agradeço a todos que têm interagido. Agora, é sair das dúvidas e questionamentos para a ação.Antônio Galdino da SilvaPaulo Afonso,BA., 24/08/2021


Márcia Pereira

24/08/2021 - 08:04:06

Esse e-mail, eu enviei para vários gabinetes da prefeitura de Nova Glória, inclusive para o gabinete do prefeito.Por enquanto, ninguém entrou em contato comigo.Não estou mendigando trocas de favores políticos.Estou buscando, acesso de registros e memórias históricas, que não somente para mim é de grande importância. É uma forma de honrar e agradecer meus antepassados. Meus avós paternos.Amâncio Pereira Dos Santos e Maria São Pedro Dos Santos.Cidadãos do Povoado da Barra.O teólogo e filósofo alemão Berth Hellinger, tem uma frase que sempre me encorajou a dar sentido a minha existência.⁠"Atrás de mim estão todos os meus ancestrais me dando força. A vida passou através deles até chegar a mim. E em honra a eles eu a viverei plenamente." Bom dia, Senhores e Senhoras.Meu nome é Márcia Pereira Dos Santos.Eu sou neta de Amâncio Pereira Dos Santos.Meu avô era da Barra, e eu passei alguns maravilhosos anos da minha infância na Barra.Agora que estou escrevendo minha autobiografia, estou procurando registros da Barra.É triste e vergonhoso, constatar que não encontrei nada, absolutamente nada, que mencione a existência da Barra.A Barra não foi somente inundada para a construção de barragens da chesf.A chesf com todo seu poder, e com a cobertura do governo ditatorial da época, conseguiu aniquilar a história de um lugar e seu povo.Não é a toa que o Brasil é o que é: fragmentado, sem identidade.Um povo que não sabe dar valor a suas raízes.Obviamente, as memórias que eu tenho daquele lindo e bucólico lugar as margens do Rio São Francisco, ninguém rouba de mim.Mas eu gostaria muito de encontrar no mínimo uma foto da Barra.Eu moro na Alemanha, e infelizmente não posso no momento cuidar disso pessoalmente.Por isso que estou recorrendo as várias maneiras possíveis, para encontrar ajuda na minha busca.Meu WhatsApp é +49 176 ...Muito obrigada pela atenção.Márcia Pereira Dos Santos


F. Nery Jr.

23/08/2021 - 17:45:39

Você tem toda razão, Galdino. Que o seu brado seja ouvido. Que o atual prefeito, David Cavalcanti, cujas ações nos fazem considerá-lo esclarecido, tome a iniciativa de promover um projeto de resgate da memória de Glória. Idem em relação ao deputado Negromonte Júnior que descende da família de Adauto, certo? Em 1974/75 fiz questão de andar nessas ruas e locais, hoje embaixo d'água, registrados por você, para hoje testemunhar que andei no fundo do abismo das águas da UIsina de Moxotó.Valeu a sua iniciativa.


Márcia Pereira

22/08/2021 - 09:44:52

Prezado Professor Galdino.Muito obrigada pelo seu empenho com esse trabalho de imensurável valor, que é o resgate dos conteúdos históricos desses municípios e das memórias dos seus respectivos povos.Já que esses municípios e seus povos, existiram muito antes da própria cidade de Paulo Afonso e da chesf.Isso não é somente uma questão de reconhecimento, mas também uma questão de respeito.Essa falta de interesse e o desrespeito com a existência,as lutas, as dores dos nossos antepassados, começa no seio familiar.Eu digo isso por experiência própria.Minha busca é solitária, tanto do lado paterno como materno.Isso eu lhe garanto, é muito triste e doloroso.Assim, os gestores municipais, os empresários, se sentem confortáveis com o desinteresse e descompromisso com as pesquisas de valores históricos da região.Professor Galdino, quanto a sua pergunta:O que o menino da sua foto pensava, eu não posso responder.Eu só posso responder o que eu senti, quando com uns sete anos de idade, tive que sair da minha bucólica Barra, para ir para Nova Glória.Eu sentia falta e muita saudades, do casarão dos meus avós paternos, do bar do Sr. Soares, onde eu ia comprar mariolas,das lindas flores de bunganvílias, que adornavam a frente da casa do Sr. Dionísio Pereira, dos dias ensolarados de domingos onde nós crianças íamos comer arroz doce, feito pela Sra. Pipia em baixo do pé de tamarindo. Eu sentia muitas saudades...Entretanto, o bom é que, o que eu vivi, ninguém rouba de mim.Essas memórias me consolaram muitas vezes, em vários dias de frio aqui na Alemanha.Muito obrigada, Professor Galdino. Atenciosamente Márcia Pereira Dos Santos


PAULA FRANCINETE RUBENS DE MENEZES

22/08/2021 - 07:20:30

Dar a conhecer a história das nossas raízes é um dever moral para com os nossos antepassados. Parabéns, Prof. Galdino, pela materia. "Puxão de orelha" aprovado!


Denis Reis

22/08/2021 - 05:44:32

Muito boa matéria Professor Galdino. Elucidativa, educativa e a cima de tudo resgatadora do valor histórico da cidade mãe de Paulo Afonso. Meus parabéns!


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