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Jornal Folha Sertaneja Online
Professor Nery

Nos caminhos da Educação com o Professor Doutor Jacques Fernandes

Entrevista concedida ao Professor Francisco Nery

Publicada em 17/05/21 às 02:08h - 473 visualizações

por Francisco Nery Júnior


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Nos caminhos da Educação com o Professor Doutor Jacques Fernandes
 (Foto: Arq. do jornal Folha Sertaneja)

Da Redação do site www.folhasertaneja.com.br:

No início deste mês de maio tivemos a alegria de divulgar neste site a conclusão do Curso de Doutorado em Educação de mais um pauloafonso, “cassaco”, ou aquele que se vê na pele dos que, anonimamente, foram pioneiros destas terras sertanejas os avós e os pais e outros familiares de muitos que construíram o grande patrimônio nacional chamado Chesf e, com isso, conseguiram o feito de mudar totalmente a história da região Nordeste. Pelo trabalho desses anônimos e nem sempre valorizados ou reconhecidos “cassacos”, a história do Nordeste tem dois grandes capítulos: A/C e D/C ou seja: Antes da Chesf e Depois da Chesf.

Durante muitos anos, dezenas deles, até para se conseguir um Curso de Nível Superior, os filhos dos cassacos tinham que buscar essa graduação em outros lugares, distantes o que era praticamente impossível para quase todos.

Hoje, embora já se tenha dezenas de opções – presenciais ou à distância – para se conseguir uma graduação em nível superior em várias áreas do conhecimento.

Para outros níveis, mais elevados e que exigem ainda muito maior dedicação, é preciso ainda ir às capitais mais próximas para realizar os sonhos de Doutorado e Pós-Doutorado.

Alguns pauloafonsinos têm buscado esses sonhos e quando se olha para a história de vida de cada um desses sonhadores, sua origem humilde, seu estudo apoiado por bolsas de estudos, precisamos reconhecer o seu esforço e aplaudir a sua decisão.

Foi o que fizemos quando destacamos aqui neste site a conclusão de Doutorado do Professor Edvaldo Nascimento há dois anos atrás, no Recife e quando destacamos também o Doutorado concluído há pouco pelo Professor Jacques Fernandes, em Aracaju.

O Professor Francisco Nery Júnior, colunista deste site e do jornal Folha Sertaneja realizou uma importante entrevista com o Professor Doutor Jacques Fernandes e nos comprometemos de divulga-la, na íntegra neste site www.folhasertaneja.com.br.

O tema é EDUCAÇÃO e certamente vai interessar a tantos quantos, estudiosos, professores, educadores, atuam nessa importante área do conhecimento.

Como a entrevista é longa, ainda assim, optamos em publicá-la por inteiro, para não perder a sequência lógica do seu importante conteúdo e convido a estes, estudiosos da Educação, professores, educadores a ler essas considerações que faz o Professor Jacques Fernandes. Sem querer estar abusando da boa vontade de cada um, peço ainda que interajam, enviem comentários, compartilhem com outros contatos, ao tempo em que agradecemos, como editor deste site, tanto ao novo Doutor em Educação como ao Professor Francisco Nery que conduziu a entrevista com muita segurança.

Como se fosse um bom livro, leiam até o final. Obrigado.

Professor Antônio Galdino da Silva

Editor do site www.folhasertaneja.com.br e jornal Folha Sertaneja

 

Nos caminhos da Educação com o Professor Doutor Jacques Fernandes 

Introdução e entrevista por Francisco Nery Júnior  

  

A inspiração para o seu nome vem de Jean Jacques Rousseau. Para o convívio social pacífico, já que nada autoriza o ser humano considerar-se superior ao outro, asseverava o grande pensador, o único caminho é o entendimento. Nesse afã, a educação é fundamental posto que liberta e desenvolve. Mas a palavra está com o nosso mais novo doutor em educação. A entrevista que segue, leitor, não é longa. Ela é, podemos considerar, apenas completa no sentido das respostas adequadas. Então sente, relaxe, e aproveite a oportunidade de se envolver num dos processos mais apaixonantes da humanidade: a capacidade de se educar. Vamos lá:    

  

Prof. NERY - Nas minhas obras, eu verificava que os pedreiros e ajudantes que melhor reagiam às instruções tinham algum grau de escolaridade. Quanto maior o grau, melhor a reação. Qual a sua análise? 

  

Prof. JACQUES Fernandes - Professor, sou defensor do conhecimento em CAUSA! Acredito que a Educação, em todas as suas nuances e formas, é sempre um instrumento de libertação. Tanto que, ao longo da história, tantos reis, imperadores e ditadores, até a contemporaneidade, sempre encontram uma forma de enfraquecer o livre acesso ao universo do conhecimento. Todo conhecimento é caminho para a instrução, e neste caminhar, existem os conhecimentos da INSTRUÇÃO, aqueles doados pela instrução oficial, ou pela escola... Mas também existem os CONHECIMENTOS DA VIDA, e estes somente nos são doados pelo longo ou curto (depende do ângulo) trajeto de vida. Neste último caso, por exemplo, posso tranquilamente citar Educadores como o Senhor e o Prof. Galdino, que são ‘arquivos vivos’ do fazer-se construir a história local e regional. Sempre defenderei que a EDUCAÇÃO, em todas as suas perspectivas, é um direito de todos os seres humanos, e que somente com o livre conhecimento, teremos uma nação fortalecida, enquanto Estado e República. A Educação jamais se desassocia do conhecimento de vida, pois este é o acúmulo das nossas experiências! 

 

Prof. NERY - O professor Carlos Lessa uma vez comentou que a busca da felicidade estava cada vez mais sendo negligenciada no esforço educacional do Brasil. Você concorda? 

  

Prof. JACQUES Fernandes - Concordo que a FELICIDADE está sendo negligenciada em vários ângulos na sociedade contemporânea! Em especial, na Educação, alguns profissionais defendem há mais de vinte anos que ‘estudar é flagelo’ ou ‘estudar não é um hábito intuitivo’, e desta perspectiva, eu discordo. Estudar é um ATO de vida, e cada ser humano terá uma apropriação individual do que é ‘estudar’. Acredito que não podemos encarar a educação como um ‘esforço’, e que ela deve, sim, ser um ‘prazer’. A dificuldade está em ter uma opinião hegemônica sobre o que é o prazer! Confundimos muito a FELICIDADE com o PRAZER, e este movimento é estimulado por vários âmbitos de uma sociedade imediatista. Todo este contexto deixa os educadores em meio a um fogo cruzado em uma sociedade que, nacionalmente, cada vez mais descredibiliza o papel do professor. Por isso, sim, temos caminhado para uma Educação que negligencia a FELICIDADE... Por outro lado, temos cada vez mais exemplos de educadoras e educadores que, dentro de suas realidades, transpiram e inspiram FELICIDADE em tudo que fazem e conseguem levar isso para suas salas de aula. Este é o verdadeiro sentimento que deve permear o caminho da felicidade na Educação: REALIZAÇÃO! 

  

Prof. NERY - Evidente que o professor na sala de aula é fundamental. A sua importância, principalmente em relação ao ensino, não está sendo superdimensionada? Se fosse tão alta, as notas dos alunos de um mesmo grupo (no conceito de zero a dez) seriam tão díspares; não se situariam numa faixa mais ou menos equilibrada? 

  

Prof. JACQUES Fernandes - Caminhamos, especialmente desde o ano 2000, para a sociedade da Cibercultura, ou seja, vivemos no século XXI o advento da quinta revolução humana: a Cibernética. Isso implica compreender que, daqui para frente, estaremos sempre canalizando esforços para uma virtualização das tarefas sociais. Na educação não seria diferente. O que vemos é o advento da transformação das atividades pedagógicas onde nós, Educadores, somos desafiados à tarefa em ser ponte entre os conhecimentos tácitos, os conhecimentos epistemológicos, e sua utilização enquanto prática. Neste movimento, a sociedade humana estará cada vez mais carente de conhecimento tácito, pois uma das consequências da virtualização é que perderemos, progressivamente, a naturalidade de desenvolver competências como EMPATIA e SOLIDARIEDADE, ou seja, seremos cada vez mais introspectivos, fechados em nossas bolhas. Os Educadores, humanos, neste contexto, ainda são, e serão, o único caminho para estourar a bolha individual de cada educando que nos é apresentado. É neste estourar a bolha que está o novo papel do Educador para o Século XXI. Não precisamos apenas ensinar o óbvio, pois para quem deseja aprender o óbvio a virtualização está posta. Nosso papel, intrinsecamente, está concentrado em ajudar a humanidade a continuar sendo humanidade. Por este ângulo, eu afirmo que NÃO. Não estamos superdimensionando a importância do PROFESSOR em sala de aula pois estes educadores estão atuando para além dos conceitos entre zero e dez. Mas, para aqueles que continuam com a reprodução de uma educação praticada entre o século XVIII e XX, que obviamente foi necessária e eficaz para aquele contexto, assistiremos, sim, a mais e mais questionamentos sobre seu papel pois, para atribuir valor mecânico entre zero e dez, a IA (Inteligência Artificial) ocupará este espaço. 

  

Prof. NERY - Nos meus últimos cinco ou seis anos de sala de aula, não obstante o reconhecimento da avaliação para efeito de planejamento e correção de rumo, o curso em um colégio público noturno, alunos adultos, a minha preocupação era, desde a primeira aula, tranquilizá-los em relação às notas. Garantia que todos iriam ser aprovados na minha matéria, salvo em casos especiais. Pela simples observação, sem uma metodologia específica, posso afirmar que o aproveitamento melhorou. A pressão da nota não é prejudicial? 

  

Prof. JACQUES Fernandes - SIM! E mais uma vez corroboro para a grande transformação exigida pela Educação no século XXI. Para compreendermos este ato, é preciso encarar que, na contemporaneidade, nossos valores morais, culturais, e estéticos mudaram profundamente os valores sociais. Assim, encarar a Educação diante do conceito na atribuição de NOTA é deixar cada vez mais nossos educandos dentro da sua ‘bolha cibercultural’ isolados, sozinhos. Quando deixamos o ‘zero a dez’ de lado, trazemos novas perguntas e significâncias para o ato de estudar, focando nossa perspectiva em temas como projeto de vida, desenvolvimento humano e carreiras. Por assim dizer, com este olhar, afirma-se que o senhor, em sua prática escolar, já avançava vários anos em sua pedagogia educacional, estando muito à frente daquele tempo, focando em temas talvez ainda não priorizados pela didática. 

  

Prof. NERY - Com o avanço das tecnologias de comunicação, a importância da escola fica reduzida? 

  

Prof. JACQUES Fernandes - NÃO! Ela se amplia. Conforme o enredo das questões 3 e 4, a ESCOLA no século XXI se caracteriza como sendo um dos principais espaços capazes de evitar um processo de ‘desumanização’ virtual e coletiva. Nosso papel é ser além da educação tácita ou instrutiva e ser uma educação realizadora e transformadora. Não há, em pleno ano 2021, nenhum dispositivo digital, virtual e nem tampouco de IA (Inteligência Artificial), que traduza os moldares humanos tão bem quanto um Educador humano (SIC)! 

  

Prof. NERY - Estamos em meio a uma pandemia. As escolas estão fechadas há mais de um ano. Uma grande educadora assegurou que os aspectos psicossociais ficam garantidos pela convivência em família. A grande perda seria em relação ao ensino. Você concorda? 

  

Prof. JACQUES Fernandes - NÃO! E não podemos validar a afirmativa que os “aspectos psicossociais ficam garantidos pela convivência em família”, muito pelo contrário. A Organização Social TODOS PELA EDUCAÇÃO, através de parceria com a ONU e UNESCO, realizou o maior levantamento deste período sobre o tema educação na pandemia. O estudo demonstrou exatamente o contrário. O maior desafio da Educação na pandemia é cuidar dos aspectos psicológicos dos estudantes e das famílias. A convivência familiar “saudável” no Brasil, dentro dos parâmetros mínimos, atinge apenas 5% dos lares. Em um país que bate recorde de violência contra a mulher, que é líder em suicídios de jovens, e em que 70% das crianças e adolescentes em fase escolar somente têm garantidas duas refeições ao dia enquanto estiverem na escola, é impraticável afirmar que existem condições socioemocionais adequadas para esta convivência. Em minha tese, levantamentos realizados pelo Grupo Internacional de Pesquisa GPDACC confirmam este panorama. A Educação, e todos que a compõem, especialmente EDUCANDOS, FAMÍLIAS E EDUCADORES foram severamente impactados pelos seus efeitos e isso exigirá, pelo menos, três anos de árduo trabalho socioemocional para voltarmos a patamares tidos antes da pandemia. 

  

Prof. NERY - Uma pesquisa realizada pelo presidente da Academia Brasileira de Cultura demonstrou que dentre um grupo de alunos de classes menos favorecidas, o melhor aproveitamento se deu entre aqueles que eram expostos a, ou vivenciavam, atividades culturais. Cultura ajuda a educação? Os alunos das classes mais altas levam vantagem? 

  

Prof. JACQUES Fernandes - A Cultura e a Educação jamais se desassociam! Quanto maior o grau educacional, maior a profundidade cultural. E quanto maior a profundidade cultural, novos voos e possibilidades se deseja alcançar através da Educação. Educação e Cultura, juntos, são a maior combinação de empoderamento já desenvolvida pela humanidade. Tanto que, para se descaracterizar, escravizar ou ideologizar uma sociedade, os algozes eliminam Cultura e Educação pela raiz. PORÉM... (com letras maiúsculas que simbolizam um grande porém) Cultura e Educação são instrumentos poderosos que precisam de tangenciamento para serem vividos. O fato de as camadas mais abastadas terem, sem sombra de dúvida, maior facilidade de acesso a estes dois âmbitos podem, também, por vezes transformá-los em “imbecis de calças curtas” que poderia ser simbolizado pela seguinte imagem: um grupo de pessoas de alta classe que teve possibilidade de ir à Roma, e que não compreendem o porquê de seus pais estarem em completo êxtase ao contemplarem o Coliseu, e soltam “tá bom, já vimos isso aqui, vamos lanchar” ... kkkkkkkkkk ! Ter acesso e não ter instrução ou balizamento familiar ou social, para o que temos, é o mesmo que não ter. Fica a reflexão! 

  

Prof. NERY - Em uma sociedade competitiva, os pais ditos mais esclarecidos pressionam por um ensino de qualidade. A pressão não se resume às notas. Eu ensinei em uma escola de elite em Salvador. Em uma ocasião uma mãe foi à escola e me pressionou para “apertar” mais o seu filho. Comente 

 

Prof. JACQUES Fernandes - Somos frutos daquilo que vivenciamos! É natural contemplarmos uma sociedade que acredita que os melhores resultados vêm sempre da pressão ou das melhores notas. Quero trazer como exemplo minha vivência. Em minha caminhada educacional, sempre fui bolsista em uma escola privada. Assim, sempre fui o aluno da classe que, enquanto me preocupava se teríamos almoço em casa, muitos dos meus amigos de classe sempre estavam preocupados em ter uma peça de ‘farda’ novinha para usar a cada dia (e eu que me esgueirasse com a minha única peça de farda doada pelos professores). Bom, o contexto social de muitos deles foi determinante para alguns comportamentos, para outros não, e independente da classe ou da ‘pressão’ de cada um, todos eles se transformaram em pessoas GRANDES no que se propuseram fazer. Um exemplo disto é que, da nossa grande turma do fundamental, saíram músicos, cantores, pesquisadores, políticos e doutores de grande projeção e sucesso. Tudo na vida tem o seu tempo e talvez um dos grandes desafios educacionais do presente seja ajudar as pessoas, pais e educandos, a compreenderem os seus próprios potenciais e seu uso ao longo do tempo que temos! 

  

Prof. NERY - Temos a predominância da meritocracia nos vários ramos da atividade humana. Devemos bani-la das nossas escolas? O banimento não seria um nivelamento por baixo? 

  

Prof. JACQUES Fernandes - Precisamos resignificar o conceito de MERITOCRACIA que temos no Brasil. Partindo do princípio que Meritocracia é o sistema de valorização do mérito dado a cada indivíduo diante dos seus esforços e desempenho, quando garantidas condições igualitárias de acesso à Educação, Saúde física e socioemocional, compreendemos que o que temos nas terras de cá é uma grande “sacanagem” com os menos favorecidos quando o tema é MERITOCRACIA. Aliás, a maior prova de que não somos uma nação pronta para trabalhar com o sistema de méritos é perceber o famoso “jeitinho brasileiro” que nada mais é do que a evolução do regime de desigualdade social. Enquanto o Brasil for uma nação de ampla desigualdade social, expressa na sua péssima distribuição de renda, Meritocracia será sempre um tema questionável e sensível. Mas acredito que a Educação sempre estará pautada em desenvolver potenciais humanos e que, para isso, aprenderemos a fazer com que cada um conquiste o seu Mérito. 

  

Prof. NERY - O estado do Ceará se destaca pelos bons resultados do sistema de educação. Segundo um pesquisador, uma das razões é o tempo que o aluno permanece no ambiente escolar. Na China, o aluno permanece na escola (almoça ou lancha na escola) após as aulas para a resolução das tarefas que lhe são dadas pelos professores. Eles dispõem de tutores disponibilizados pela escola para esse mister. Comente. 

  

Prof. JACQUES Fernandes - Para além disso, também é preciso entender que o Ceará e Pernambuco são os estados do Nordeste que melhor distribuem seu orçamento entre os setores como Educação, Saúde e Segurança Pública. Lembra da reflexão anterior sobre meritocracia? Que ela é fruto da garantia de uma melhor igualdade de oportunidades? Eu diria que uma das principais lições do Ceará e da China é começar por uma decente e igualitária distribuição de investimentos e prioridades de orçamento. Afinal, em plena sociedade capitalista, poucas coisas podem de fato se desenvolver sem um orçamento decente. Em todos os lugares onde a EDUCAÇÃO, enquanto Política Pública, é encarada com seriedade e, de fato, como prioridade, é favorecida a criação de um ambiente igualmente sério de responsabilidade com o que se faz. Assim, quando o poder público é o primeiro a criar uma atmosfera de seriedade e credibilidade com a educação, ele estimula toda a sociedade a fazer o mesmo. Como consequência, hoje temos as sociedades cearense e pernambucana como aquelas que mais se importam, em todos os níveis, do mais rico ao mais pobre, com a Educação. Não é uma decisão natural da sociedade. Isso foi estimulado pela própria conduta do poder público e requer tempo para que as condutas criem raízes e comportamentos sociais que levam toda a comunidade a priorizar este tipo de conduta. Ou seja, mesmo depois de mais de 2.000 anos de Cristo, seu mandamento é lei: “Sede tu, líder do teu povo, o exemplo para as nações!” Daí em diante, a sociedade se adapta, se transforma, e conduz o processo. 

  

Prof. NERY - O príncipe Philip, recentemente falecido, uma vez comentou que os pais enviam os seus filhos para a escola “para se livrarem deles”. Os resultados escolares não seriam bem melhores se os pais se envolvessem mais com a educação dos seus filhos?  

 

Prof. JACQUES Fernandes - Sim! A pandemia também revelou que mais de 75% das famílias brasileiras “jogam” seus filhos na escola para poder trabalhar. Assim como a reflexão feita na questão anterior, temos uma postura social, estimulada pelo governo, que a escola é o ambiente social estruturado para dar condições a uma produção proletária no Brasil. Isso já foi a muito discutido, sobretudo pelo Professor José Carlos Libâneo que retrata os efeitos da adesão do Brasil aos tratados comerciais internacionais que nos transformaram em fornecedores de matéria prima para o mundo. Ou seja, mais uma vez estamos diante de uma conduta que é ampla, mas é a cartilha ditada pelo governo pelo menos desde 1992. Assim, não podemos, ainda que parcialmente, culpar as pessoas. São frutos desta realidade! A participação e presença familiar é, sem sombra de dúvida, um dos grandes divisores de comportamento que fazem a Educação ter um sentido IDEAL na sociedade bem distante do sentido REAL. Somente através de Políticas Públicas que direcionem e conduzam este processo, teremos pela frente condições de criar o cenário IDEAL. 

  

Prof. NERY - Há uma corrida desenfreada no Brasil para a aquisição de um diploma de nível superior, com subterfúgios e esquemas variados (idem para mestrados e doutorados), por ser o caminho para uma melhor remuneração no trabalho ou na empresa. De cada três americanos, apenas um tem diploma de curso superior. Onde estaria a incongruência? 

  

Prof. JACQUES Fernandes - A incongruência está no sentido social dado às titulações no Brasil. Em verdade professor, é preciso ressaltar que o Brasil é, de longe, dentre as maiores nações do mundo, aquela em que menos se valorizam progressões acadêmicas como mestrados e doutorados. Este movimento herdou a mesma visão doada à Educação que celebremente sempre foi encarada como um espaço de desvalorização com salários baixos e ampla expropriação do professor que precisa, em média, estar empregado em três escolas diferentes para ter uma remuneração digna. Mais uma vez, quero ressaltar que estes comportamentos são frutos de décadas e décadas de desvalorização docente, ou seja, pela timidez das Políticas Púbicas de Educação. Neste cenário, é compreensível entender porque no Brasil, por exemplo, é pequeno o número de profissionais da área de Engenharia, Direito ou Saúde que se dedicam a buscar um doutoramento. Este caminho acabou ficando, em sua grande parte, para os profissionais da Educação pelos motivos expostos. Então, por assim dizer, é salutar se fazer a seguinte pergunta: Quando um país te oferece um único caminho para ter uma carreira de forma decente, sem alternativas, e você, por amar aquela carreira, diria não para as regras? Bom, você seria quase um anarquista. Para além disto, no Brasil, um estudo feito pela Comissão de Aperfeiçoamento de Pessoal do Ensino Superior (CAPES) em 2019 revela o contrário. Apesar de todas as dificuldades impostas no Brasil, entre os anos de 2008 e 2014, o Brasil atingiu seu ápice na busca de Mestrados e Doutorados, tendo neste mesmo período o maior número de pesquisadores aceitos para participar de projetos em Universidades Internacionais. Porém, desde 2016, este número caiu drasticamente e chagamos em 2021 ao menor índice da história de busca por uma Pós-Graduação. Somos fruto do meio social que é influenciado pelo comportamento do poder público. Enquanto as Políticas Públicas para Educação, Ciência e Tecnologia não forem uma prioridade, de fato estaremos à mercê deste comportamento. 

  

Prof. NERY - Considerando ser a escola uma instituição comunitária, os pais não poderiam ser convocados [à escola] para uma “negociação” das regras de convivência, aliviando a insuportável pressão a que são submetidos os professores? Tal pressão não conduz a um “relaxamento” por parte de muitos educadores? O resultado da falta de tal negociação não seria desastrosa para os próprios alunos? A título de ilustração (está publicado): de cada vinte alunos aprovados no curso de medicina da UNIVASF, dezenove são de fora. Apenas um [dos vinte] é da região de Paulo Afonso (raio de 100 quilômetros). 

  

Prof. JACQUES Fernandes - SIM! Mas, este é um comportamento, uma conduta, que somente pode ser exigida da sociedade quando temas como Igualdade Social, Econômica e Políticas Públicas efetivas estiverem em campo. Qualquer tentativa de se adulterar um comportamento social que não seja fomentado pelo topo da cadeia (ou seja, pelas nossas lideranças, sobretudo políticas) qualquer movimento deste tipo não passará de uma mera tentativa ou de uma ilusão ou até de uma rebelião social contra o que está posto e isto seria quase que um movimento de anarquia. O caminho correto é induzir este pensamento através de condutas públicas que se projetam no povo e como consequência colhem as transformações sociais. Este movimento quase se iniciou timidamente entre os anos de 2004 e 2014, mas definhou progressivamente. Ainda somos uma jovem nação e nosso maior desafio ainda é consolidar uma república de fato. Todavia, compreendendo que somos acometidos de iniciativa e consciência social, SIM, sou e serei sempre um defensor de que é preciso existir o Pacto, a negociação, o acordo de deveres, entre família e Escola em todos os níveis da Educação pois acredito nas iniciativas sociais que inspiram mudanças de cenários. Tanto que em minha práxis pedagógica, é comum a minha aproximação mais que didática com os educandos e suas famílias. Sei onde moram, quem são seus familiares e sou daqueles que, em oportuno encontro com os mesmos e com os seus, não perco a oportunidade de um bom café para sentar e dizer “hoje eu vim aqui para falar do(a) seu(sua) filho(filha)!” 

  

Prof. NERY - Paulo Freire é, sem dúvida alguma, uma referência na educação. Uma das avaliações é que seu maior mérito foi a gestação de um método de alfabetização. Em uma conversa com uma doutora em educação nos Estados Unidos, onde residiu por onze anos, casualmente indaguei sobre a percepção de Paulo Freire pelos americanos. A consideração é que a teorização predomina na obra do educador. Qual a sua impressão? 

 

Prof. JACQUES Fernandes - Paulo Freire foi um dos raros seres humanos incompreendidos em seu tempo e também na contemporaneidade. Compreender Paulo Freire passa pela condição humana de ser colonizador ou colonizado. Sua caminhada pelas nações do mundo em um período de grande desenho de forças políticas e geográficas o fez um entusiasta da democracia e da instrução como bandeira mor. Tal o seu nível de intelectualidade entre o ser educador e o ser político, ele doou ao mundo toda uma epistemologia que se perpetuou como a base teórica para a compreensão do que é uma Educação Libertadora, transformadora, assim como o fez Karl Marx, Jacques Rousseau (que inspirou meu nome), Lacan, Diderot e Durkheim. Assim, estamos falando de um homem que segue a trilogia de seus antepassados permitindo, a cada século, termos pensadores e intelectuais à frente do seu tempo que conseguem captar a essência dos desafios postos pela humanidade e transformá-los em Política. Sem estes intelectuais, homens e mulheres à frente do seu tempo, pouco teríamos avançado em temas como Direitos Humanos e Educação. Paulo Freire é um homem cuja a obra é atemporal. Ele, enquanto vivo, foi o maior símbolo de como pessoas simples podem encontrar na Educação o caminho para o desenvolvimento de todo o seu potencial. Ele é único, mas estimulou a existência de muitos “Freires” pelo Brasil afora. 

  

Introdução e entrevista por Francisco Nery Júnior 




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