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Professor Galdino

3 de junho – mais uma vez precisamos lembrar que o rio São Francisco está morrendo...

- 3 de junho – Dia Nacional em defesa do rio São Francisco -

Publicada em 03/06/24 às 14:59h - 368 visualizações

Antônio Galdino


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3 de junho – mais uma vez precisamos lembrar que o rio São Francisco está morrendo...
 (Foto: Arq. do jornal Folha Sertaneja e acervo do autor)

O rio São Francisco precisa de socorro. Urgente!


Por Antônio Galdino da Silva

Especialista em Turismo (UNEB-2001)

Mestrado em Ciências da Educação (Turismo)

- Univ. Internacional Lisboa/Portugal(2005)

Hoje, dia 3 de junho de 2024, quando, na chamada Semana do Meio Ambiente, em muitos lugares, as pessoas, as prefeituras, os governos, as instituições voltadas para o tema, discutem, debatem, buscam soluções para diminuir os estragos que o próprio homem e seus governos têm feito à natureza, à flora, à fauna, aos rios que dão vida e riqueza aos lugares onde moram estes mesmos homens...

Ao longo dos muitos anos tenho escrito sobre esse tema, neste e em outros sites, no Jornal Folha Sertaneja, artigos em livros da Academia de Letras de Paulo Afonso onde até fizemos um livro só sobre o rio São Francisco, em prosa e versos...

Hoje, resolvi escrever novamente e o farei sempre... E lamento ter que mostrar algumas imagens que não gostaria de mostrar, do rio doente, assoreado, a majestosa Cachoeira de Paulo Afonso, hoje seca, e na sua grandeza, razão da mudança da história do Nordeste com a produção da energia hidro elétrica, a "luz de Paulo Afonso".  

Dia 4 de outubro o rio São Francisco completa mais um aniversário de sua descoberta em 1501: 523 anos de conhecida vida intensa.

E, ao longo desses mais de cinco séculos esse manancial de riquezas só trouxe o bem para grandes regiões nos quase 3 mil quilômetros de sua caminhada, desde o alto da Serra da Canastra, em Minas Gerais até o seu abraço fatal com o Oceano Atlântico, na divisa dos Estados nordestinos de Alagoas e Sergipe.

 

Nas muitas décadas de contato com esse rio de tantas virtudes, desde quando ainda menino com menos de 7 anos o vi pela primeira vez, imenso, quando acompanhei meus pais e meu irmão ainda mais criança, com 4 anos, na viagem que fizemos de Taperoá, na Paraíba para Forquilha onde havia a efervescência, o agito enorme de pessoas que também buscaram esse destino para trabalhar nas obras da construção da primeira Usina Hidrelétrica da Chesf.

Numa balsa como esta, conheci as muitas águas do rio São Francisco - Nov/1954

Era o dia 20 de novembro de 1954, há quase 70 anos atrás, quando entramos na enorme balsa em Petrolândia/Pernambuco para atravessar o rio e chegar ao povoado Barra, do município de Glória, no Estado da Bahia e dali ainda teríamos 30 quilômetros de estrada de chão, quase carroçável, até chegar a Forquilha, hoje a imponente Paulo Afonso.

A visão daquele rio imenso nunca mais me saiu da cabeça. Menino, sertanejo, nascido em Zabelê/Monteiro, na Paraíba, terra de meu pai, João Galdino, mas já vindo de Taperoá, também na Paraíba, terra de minha mãe, D. Severina, eu nunca tinha visto um cenário como aquele. E, cá com meus botões eu imaginava que o mar, que eu também nunca vira, devia ser assim, grande com este rio.

Ao longo da vida, dos estudos, das pesquisas, fui conhecendo melhor o São Francisco, que já se chamou “rio da unidade nacional”.

 

Aprendi que o Imperador D. Pedro II que veio conhecer a Cachoeira de Paulo Afonso e que mandou fazer a Estrada de Ferro Paulo Afonso, da cidade de Piranhas até a cidade de Jatobá, hoje chamada Petrolândia justamente em homenagem a esse Imperador do Brasil, tinha por objetivo fazer essa ligação da região Nordeste com os estados do Sudeste e Sul do Brasil, pelo rio São Francisco.

Nascente histórica do rio São Francisco, na Serra da Canastra, em São Roque de Minas/MG

Aprendi que este rio que sai de Minas Gerais, pequenino e frágil, logo se agiganta e abraça quatro Estados Nordestinos – Bahia, Pernambuco, Alagoas e Sergipe – tem as suas águas benfazejas utilizadas para muitas finalidades - navegação, produção de frutas em projetos gigantescos de irrigação, turismo, produção de energia hidro elétrica, além da natural oferta da "bendita água", como diz a oração de São Francisco, para atender á necessidade do consumo humano e animal...

Mas, tenho visto também em minhas pesquisas, nas leituras que faço, nos vídeos que vejo, nos depoimentos que tenho escutado, que o homem, ser ingrato com o rio que é só bênçãos, o vem matando aos poucos, há séculos...

 


Um tempo maior de estiagem, sem chuvas, só agrava ainda mais o problema do assoreamento do rio que existe pela ganância do enriquecimento de alguns que transformaram imensos terrenos de suas margens em pastos de fazendas. 

Devem estar se perguntando: Cadê o grande rio São Francisco que passava por aqui?

Outros, na busca de ouro e pedras preciosas, entopem suas veias com metais pesados, iodo e outros ou com agrotóxicos, lixo, sujeira, esgotos de centenas de cidades que nasceram nas suas margens justamente para se beneficiar de suas águas benfazejas...

Não fossem as águas do rio São Francisco, não haveria a energia hidroelétrica de que o Nordeste precisava para sair da sua condição de miséria absoluta.

 

Não fosse a existência das Usinas de Paulo Afonso, construídas pela Chesf, instalada na região há pouco mais de 70 anos, não haveria o município de Paulo Afonso e muitos outros que nasceram ou cresceram muito a partir da existência dessas Usinas Hidrelétricas na região.

 Reservatório de Xingó - 3,2 bilhões de m³, no cânion de 65 quilômetros de Paulo Afonso à Barragem de Xingó.

Reservatório de Moxotó, abrange terras da Bahia, Alagoas e Pernambuco, com 1 bilhão de m³ de águas.

Nesses anos de convivência com o rio São Francisco, vi suas águas se espalharem por regiões imensas, fazendo cumprir a profecia do beato Antônio Conselheiro que dizia em seus sermões que o “sertão ia virar mar”. E nasceram muitos mares como Sobradinho, 34 bilhões de metros cúbicos de águas, Itaparica, quase 12 bilhões de metros cúbicos de água, Moxotó, mais de um bilhão de metros cúbicos de água e o reservatório da Usina Hidrelétrica de Xingó, com mais de 3,2 bilhões de metros cúbicos de água dentro do seu cânion maravilhoso, de 65 quilômetros de extensão...

 

E o homem tem maltratado tanto o rio que ele já não tem os peixes grandes, de variados tipos, que sempre existiram em abundância.

E tenho visto, até participado algumas vezes, de reuniões importantes na busca de soluções para minorar o sofrimento do rio... E têm sido muitas palestras, seminários, congressos, reuniões, e outras reuniões e promessas de políticos, principalmente em tempo de eleições. Uma fartura de propostas...

E o rio continua morrendo...

 

Em Março de 1972, a Editora Abril publicou o Nº 72 de uma revista chamada REALIDADE, que circulava no Brasil e em Portugal, com uma extensa Reportagem Especial sobre o rio São Francisco, que ocupou 70 páginas das 130 daquela edição, além de um didático mapa de aproximadamente 90cm X 60 cm., ricamente ilustrado – frente e verso – com importantes informações sobre este rio São Francisco.

Ali, esse importante registro, de 70 páginas, documentava os excepcionais benefícios que este nosso rio São Francisco trazia e continua trazendo para todo o Nordeste, especialmente, e já mostrava a necessidade de serem priorizados projetos de revitalização de algumas de suas áreas onde se começava a destruir as matas ciliares, provocando assoreamento em trechos antes facilmente navegáveis e já denunciava o uso abusivo de agrotóxicos e metais pesados nas águas desse poderoso manancial. 

Lembro que nos anos de 2006/2007 foi realizado em Paulo Afonso um Curso de Pós-Graduação em Política e Estratégia, promovido pela ADESG/BA – Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra, delegacia da Bahia e, nesse curso se fez um estudo de várias regiões do Brasil, através de aulas de professores/doutores de várias áreas do conhecimento humano.

 

Conheceu-se bastante sobre a Amazônia e, tendo em vista a importância do rio São Francisco para esta região e como estava no auge dos debates sobre o mega projeto de transposição de suas águas para outros Estados nordestinos, uma equipe formada por professores de História, Geografia, especialistas em turismo e turismólogos, políticos, para estudar, trazer à luz com maior propriedade para este curso, o que havia de mais atual sobre o Projeto de Transposição do Rio São Francisco que, para evitar o impacto da palavra “transposição” passou a ser tratado pelo governo federal, com o eufemismo “Projeto de Interligação da Bacia do São Francisco com as bacias do Nordeste Setentrional, no Programa de Desenvolvimento Sustentável do Semiárido e da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco.”

Os pesquisadores da equipe por mim coordenada e que se chamava “Águas Inquietas”, saíram a campo e reuniram depoimentos importantes de quem estava a favor da transposição e de quem estava contrário a ela ou desejavam que antes da transposição fosse feito um grande trabalho de revitalização do rio.

A favor, além do próprio presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, sua ministra de Meio Ambiente, Marina Silva e outros ministros, alguns políticos, os governadores dos Estados que seriam beneficiados com o projeto.

Os contrários ou que propunham mudanças no projeto, pois se pleiteava que, antes da transposição fosse feito um grande, completo projeto de revitalização do rio, eram renomados cientistas, geógrafos, professores como Aziz Ab`Saber, João Suassuna, João Abner, o bispo Dom Luiz Flávio Cappio que fez greve de fome contra esse projeto como ele foi apresentado e muitos outros.

Pressionado por essas vozes nordestinas importantes e pela greve de fome do bispo Dom Luiz Flávio e por várias manifestações que aconteceram na época (2006), o presidente anunciou um grande projeto de revitalização do rio São Francisco, tão grande era esse projeto que envolvia 14 ministérios da República.

 

Lamentavelmente hoje, 3 de junho de 2024, na abertura da Semana do Meio Ambiente, as redes sociais enchem-se de mensagens convocando a todos nós, sertanejos, nordestinos, brasileiros a nos transformarmos em “carrancas”, figura mitológica utilizada na frente das embarcações que navegam pelo rio São Francisco como tendo o poder de afastar as coisas ruins...

Pois é. Hoje, somos todos convocados para virar “carrancas” em defesa do Rio São Francisco que, por falta de um grande, definitivo e sério programa de governo para a sua total revitalização desse rio tão importante para a vida do Nordeste brasileiro... ele está morrendo...

Os muitos sinais de sua inanição, de sua morte anunciada, vêm sendo mostrados há décadas, há séculos talvez... E nada se faz, em definitivo.

Só para citar dois grandes exemplos. A Cachoeira de Paulo Afonso em alguns momentos de sua história e a foz do rio São Francisco.

 

Cachoeira de Paulo Afonso na visita do Presidente Dutra, em julho de 1947

Cachoeira de Paulo Afonso em foto de 20 de março de 1956 (Acervo Chesf)

O autor, na Cachoeira de Paulo Afonso em cheia de 2010

A Cachoeira de Paulo Afonso, cuja força de suas muitas águas que já chegaram a 18 mil metros cúbicos por segundo despencando 80 metros do alto do paredão de granito e que motivaram a criação da Usina Angiquinho em 1913, há 111 anos e as Usinas da Chesf, empresa criada em 1948, intalada em Paulo Afonso, em 1949, há 75 anos, e que inaugurou a sua primeira Usina Hidrelétrica de Paulo Afonso em 15/01/1955... A Cachoeira de Paulo Afonso hoje, como já dizia José Carlos Feitosa, in memoriam, em poema de 1980, “virou apenas um retrato na parede”.

Cachoeira de Paulo Afonso nos últimos anos. Só ressurge nas grandes cheias do rio São Francisco ou se for programada para isso. 

Do Povoado Cabeço, só ficou o farol no meio do mar. 

Na foz, as águas do rio São Francisco invadiam cinco ou seis quilômetros mar a dentro. Hoje, o mar invadiu e destruiu o Povoado Cabeço, em Sergipe, ficando de fora apenas o farol, no meio do mar e tem-se notícia que moradores mais acima da foz precisam viajar muitos quilômetros para encontrar água doce do rio para matar sua sede...

Pobre rio São Francisco. Que tem levado tanta vida e tanto desenvolvimento para milhões de pessoas hoje morre, à míngua, abandonado por quem poderia lhe restaurar a saúde e lhe dar mais vida, longa e benfazeja...

Que bom que nos lembremos que hoje é dia de defender o Velho Chico, que precisa ser defendido todos os dias e noites e pelas madrugadas, desde a nascente até a foz, permanentemente.

Concluo essa reflexão, essa análise com um texto de João Rafael Picardi Neto, publicado na Revista Velho ChicoPatrimônio mundial, bilingue (Português e Inglês), publicada em junho de 2002 pelo Ministério do Meio Ambiente/IBAMA e com circulação nos Estados de Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Alagoas e Sergipe e na África do Sul... 


A fala de um grande rio

“Sei que os senhores, homens modernos, do Século 21, não acreditam. Mas podem acreditar! Um rio enquanto corre, pensa, fala, canta, lamenta, ri, grita e até chora. Eu, o Rio São Francisco, sou um daqueles rios que gostam de prosa.

O meu irmão maior, o das Velhas, ultimamente só lamenta. Suspira de dá dó. Está agonizando. Quem olha para ele hoje não imagina que já foi caudaloso e até navegável.

Foi ele quem trouxe, lá de Sabará, o vapor Saldanha Marinho para as minhas águas. Está num morre não morre. Sofro com isso. Se deixarem o das Velhas morrer, morre com ele um pedaço de mim.

Os rios são assim: precisam um do outro para viver, não nascem prontos, fartos, largos. É sempre um ajuntar de águas.

...

Tristezas? Tenho lá as minhas. Tristeza de ver tanto desmazelo e tamanha depredação das nascentes... Tristeza ao ver as águas dos meus afluentes minguando. Lágrimas de mim secando com eles. Só de pensar, chego a chorar.

Desconfio até estar ficando meio humano... Sou o rio de todos, o rio dos Currais, das Missões, gerador de energia, da irrigação, da lavadeira, do pescador, do artesão.

O rio que mata a fome e a sede de milhões de brasileiros, em cinco estados.”

João Rafael Picardi Neto, in Velho Chico - Patrimônio mundial. Publicação bilingüe (português e inglês) do Ministério do Meio Ambiente/IBAMA - junho 2002, circulação nos Estados de Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Alagoas e Sergipe e na África do Sul.




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1 comentário


Duval Brito

04/06/2024 - 21:36:49

Professor Antônio Galdino, parabéns por mais este apelo de conscientização em prol do nosso "Velho Chico"!


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