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Santa Brígida: 64 anos de um município carente de um projeto de desenvolvimento

Publicada em 31/07/26 às 13:07h - 109 visualizações

Por Marco Gomes


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Santa Brígida: 64 anos de um município carente de um projeto de desenvolvimento
 (Foto: Marco Gomes)

  Há 64 anos, os "Romeiros", liderados por Pedro Batista da Silva, e os "Baianos", liderados por Jacob Marques da Silva, protagonizaram um dos momentos mais importantes da história de Santa Brígida. Um pequeno povoado que nascera entre currais de bois, ao pé da Serra do Galeão, junto às águas da Fonte de Pedra e da Fonte Nova, conquistava sua emancipação política e iniciava uma nova etapa de sua trajetória.

Passadas mais de seis décadas da emancipação política, é inevitável uma pergunta: o espírito coletivo que tornou possível a criação do município foi mantida pelas gerações seguintes que assumiram a responsabilidade de desenvolvê-lo?

Os indicadores sociais e econômicos revelam uma realidade preocupante. Santa Brígida permanece entre os municípios brasileiros de maior vulnerabilidade socioeconômica da Bahia e do Brasil. O PIB per capita baixo, o reduzido número de empregos formais, a elevada parcela da população vivendo com renda de até meio salário-mínimo por pessoa e a forte dependência de benefícios previdenciários e programas sociais do Governo Federal demonstram que o desenvolvimento econômico ainda não se consolidou como um projeto coletivo.

Essa realidade não é consequência apenas das limitações naturais de um município do semiárido. Ela também evidencia uma forma de administração pública excessivamente dependente das políticas dos governos estadual e federal, sem que o governo municipal exerça plenamente seu papel de formular políticas públicas próprias, integradas e complementares, capazes de transformar as potencialidades locais em oportunidades de desenvolvimento.

Santa Brígida possui ativos que muitos municípios gostariam de ter. Sua história guarda um dos mais singulares movimentos religiosos do sertão brasileiro A cultura preserva manifestações populares que atravessaram gerações. A memória do cangaço, a romaria, a Dança de São Gonçalo, os Zabumbeiros, os Bacamarteiros e tantas outras expressões culturais formam um patrimônio que nenhum investimento financeiro seria capaz de criar. A Serra do Galeão, as serras da Canastra e Encantada, as nascentes históricas e a paisagem única da Caatinga constituem um patrimônio ambiental igualmente valioso. Tudo isso pode deixar de ser apenas motivo de orgulho para se tornar também um instrumento de desenvolvimento sustentável, geração de emprego, renda e valorização da identidade santabrigidense.

Para isso, porém, será necessário abandonar a lógica da improvisação. O desafio do nosso tempo é substituir uma administração voltada somente para a execução de rotinas burocráticas cotidianas por uma gestão pública baseada em planejamento, governança, inovação e políticas públicas baseadas em evidências. Municípios que conseguiram mudar sua realidade começaram exatamente por esse caminho: construíram um diagnóstico consistente das suas deficiências e potencialidades, definiram prioridades, estabeleceram metas e mobilizaram a sociedade em torno de um projeto comum de desenvolvimento para futuro.

Nesse contexto, oportunas iniciativas estruturantes podem inaugurar um novo ciclo de desenvolvimento, como a criação do Parque Municipal das Serras do Galeão, Canastra e Encantada; a implantação de políticas integradas de saúde, educação e assistência social; a modernização da administração pública por meio da governança digital; e a criação de um Centro Municipal de Tecnologia e Inovação, capaz de aproximar conhecimento, empreendedorismo e juventude. Mais do que obras isoladas, trata-se de construir instituições capazes de sustentar políticas públicas de longo prazo.

Isso também exige uma mudança de cultura política. O futuro de Santa Brígida não pode continuar subordinado à lógica dos interesses pessoais, dos grupos políticos tradicionais ou das disputas eleitorais permanentes. O interesse público precisa ocupar o centro das decisões. O município necessita de um projeto de desenvolvimento que sobreviva aos mandatos e pertença verdadeiramente à sociedade santabrigidense.

No último dia 27 de julho de 2026, ao celebrar os 64 anos de emancipação política, rendemos homenagens aos pioneiros que transformaram um pequeno povoado em um município singular. A melhor forma de honrar esse legado é recuperar sua capacidade de sonhar grande e de construir coletivamente um futuro de desenvolvimento com justiça social.

Parabéns a todos os santabrigidenses por esta data histórica. Que este aniversário não seja apenas uma celebração do passado, mas também um convite à reflexão sobre o futuro. Porque municípios não se desenvolvem apenas pela passagem do tempo; desenvolvem-se quando seu povo decide construir, juntos, um projeto capaz de transformar esperança em realidade.

  Marco A. S. Gomes (@marcogomesreal) é graduado em Engenharia Elétrica e Economia, Mestre em Gestão Pública pela Universidade de Brasilia (UnB) e Doutorando em Administração Pública pela Universidade de Lisboa (Ulisboa). É Especialista em Regulação da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel).





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