Laço de Luto
in memoriam
Professor Antônio Galdino

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LUCIANO JÚNIOR

Ao Mestre Galdino, com Carinho

Quando um escritor se despede...

Publicada em 08/09/25 às 16:53h - 717 visualizações

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Ao Mestre Galdino, com Carinho
 (Foto: Jornal Folha Sertaneja Online)
A notícia chega como quem apaga uma lâmpada no meio da leitura. A sala permanece a mesma, mas as sombras avançam um pouco mais. Partiu um escritor, dizemos, e as estantes parecem ajeitar o corpo, como quem endireita a coluna para uma cerimônia silenciosa.

A partida de um escritor não é apenas a interrupção de uma vida; é a vírgula definitiva numa frase que ele vinha burilando desde a infância. O lápis está ainda com a marca dos dentes, o caderno conserva a inclinação da mão, a xícara guarda um meio-gole de café. O mundo, esse grande leitor distraído, enfim olha para os detalhes que ele sempre viu.

Há um tipo de luto que visita as casas quando se vai um parente; outro, mais miúdo e persistente, aparece quando parte um escritor. É o luto do diálogo interrompido. O leitor fecha o livro e, instintivamente, tenta continuar a conversa com quem não pode mais responder. A psicologia chama de “vínculo contínuo”: a pessoa se vai, a conversa não. Por isso, quem fica procura sinais — um sublinhado antigo, uma dedicatória, um marcador esquecido entre páginas — como quem recolhe conchas na maré baixa. Não é fetiche; é técnica de sobrevivência.

Religiões antigas já sabiam disso. Uns acendem velas para que a alma se oriente; outros recitam nomes, repetem salmos, entoam cânticos. No sertão, faz-se uma reza de beira de rede, nas aldeias o canto pede passagem ao tempo, no Kaddish se afirma a vida diante do vazio, na oração muçulmana entrega-se o corpo e recorda-se o encontro com o Misericordioso. Em todas, um gesto comum: a palavra comparece para acompanhar a travessia. Talvez por isso a partida de quem trabalhava com palavras nos toque de um jeito próprio: sentimos que o barco perde o timoneiro, mas o rio segue aprendendo o caminho que ele abriu.

O escritor que se despede deixa um mundo, uma cidade secreta instalada nos leitores. São ruas que se percorrem sem sair do lugar, personagens que viram vizinhos, paisagens que passam a existir no mapa íntimo. A essa cidade, ou mundo,  voltaremos muitas vezes — e será sempre visita e residência ao mesmo tempo. É assim que ele permanece: não no retrato sério do jornal, mas nos pronomes que escolhemos depois dele. Quando dizemos “nós”, com um pouco mais de responsabilidade; quando dizemos “eles”, com um pouco mais de curiosidade; quando aprendemos a dizer “eu” sem arrogância.

Partir, para um escritor, é sofrer a edição final. Aquilo que ainda seria capítulo torna-se apêndice imaginário. E, no entanto, se há justiça possível nessa travessia, ela está no milagre modesto do livro: a voz, que o corpo já não sustenta, repousa entre duas capas esperando nossa visita. O gesto simples de abrir uma página cria uma pequena ressurreição laica. O texto não vence a morte — não há bravata aqui —, mas a desobedece um pouco, o suficiente para que a conversa prossiga.

A homenagem mais honesta talvez seja continuar a cuidar das mesmas coisas com a delicadeza que ele cuidava. Fazer da memória um ofício cotidiano: chamar as pessoas pelo nome, escrever datas no verso das fotografias, aprender de que lado o vento sopra antes de opinar sobre as tempestades. Um escritor digno desse nome nunca se acreditou dono da verdade; foi, isso sim, um jardineiro de perguntas. O que ele nos pede, agora, é que reguemos as nossas.

Se houver cerimônia, que seja breve e sem exageros: uma leitura em voz alta, um minuto de silêncio verdadeiro (que é quando o silêncio não constrange), uma mesa com livros abertos como janelas. Se houver discurso, que o verbo esteja no tempo presente — porque os bons permanecem no presente: “Ele escreve assim”, “Ele olha assado”, “Ele nos ensina”. E, se alguém insistir no futuro, que seja para prometer compromisso: “Vamos reler”, “Vamos publicar os inéditos”, “Vamos ouvir quem nunca foi ouvido”.

Quando um escritor se despede, a cidade ganha um novo tipo de luz: mais oblíqua, talvez, mais exigente. Não é clarão que cega; é claridade que pede atenção. A nós, leitores, cabe a vigilância dos faróis: manter acesas as lâmpadas pequenas — as do cuidado, da escuta, da precisão. Porque cada frase bem escrita é um gesto de respeito ao mundo, e respeito é coisa que não deveria morrer.

Que a terra lhe seja leve, mestre professor. Seu corpo pertence ao descanso; suas palavras, ao trabalho. Nós as tomamos em mãos — com a humildade de quem recebe ferramentas herdadas — e seguimos. Não para imitá-lo, mas para honrá-lo: trabalhando o idioma até que ele diga com justiça o que vemos, o que sentimos, o que devemos cuidar. É pouco diante do que o senhor nos deu. E é exatamente o bastante.

Siga em paz, mestre Galdino!



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1 comentário


Jovelina

08/09/2025 - 17:14:14

Maravilha de crônica, Luciano! Faltam palavras para, realmente, dizer o que sinto ao lê-la. O mestre Galdino, certamente está muito feliz com tamanha HOMENAGEM . PARABÉNS!


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