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Gilmar Teixeira - Proseando

Paulo Afonso, Mãe de Braços Abertos - Crônica de um 28 de Julho

Publicada em 28/07/25 às 14:57h - 403 visualizações

Gilmar Teixeira


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Paulo Afonso, Mãe de Braços Abertos - Crônica de um 28 de Julho
 (Foto: Divulgação)

Paulo Afonso, Mãe de Braços Abertos

Crônica de um 28 de Julho

* Gilmar Teixeira

Todo 28 de julho me desperta como sirene de usina e canto de passarinho misturados. É aniversário de Paulo Afonso, cidade que entrou na minha vida como quem entra em casa sem bater: firme, luminosa, cheia de água e de trabalho. Foi aqui que nossa família — que saiu da zona rural de Glória, a velha cidade-mãe — encontrou rua calçada de esperança. Como nós, chegaram multidões: nordestinos de todo canto, gente do Sul, operários, engenheiros, cozinheiras, rezadeiras, crianças de olhos curiosos. Vieram erguer as usinas, domar a força da Cachoeira e, sem perceber, construíram também outra coisa: um sentimento de pertencimento que até hoje vibra nas turbinas e no coração da gente.

Antes de nós, muito antes…

Quando criança eu pensava que tudo começara com os postes altos e os capacetes da CHESF. Depois aprendi que Paulo Afonso já existia no rumor do sertão bem antes de qualquer gerador. Lá nos primórdios do século XVIII, bandeirantes atraídos pela abundância de água e pelos campos largos subiram o São Francisco sob o comando de Garcia d’Ávila. Encontraram os índios mariquitas e pancarus — gente pacífica, acostumada a semear e a criar — e, ao lado deles, foram abrindo roças e currais. Padres chegaram em seguida, por volta de 1705, tentando catequizar e também proteger, ainda que proteção de branco quase sempre viesse com cobrança.

No dia 3 de outubro de 1725, um alvará concedeu ao sertanista Paulo Viveiros Afonso uma sesmaria de três léguas por uma. Era terra larga na margem esquerda do Velho Chico, região então conhecida como Sumidouro. Mas sertanejo quando gosta não se mede em palmo: o donatário ocupou ainda as ilhas fronteiras — Barroca, Tapera — e atravessou o rio para as bandas baianas, onde ergueu um arraial. A Tapera de Paulo Afonso virou pouso de boiadas; boiadeiro precisa de água, e água aqui nunca faltou. Assim, o lugarejo foi crescendo, agarrado ao município de Glória, até que a história lhe exigisse nome próprio.

A força que cai e sobe luz

Há outra figura que ronda qualquer conversa sobre energia no sertão: Delmiro Gouveia. Visionário, em 26 de janeiro de 1913 ele inaugurou uma pequena usina de 1.500 HP para levar eletricidade até Pedra, hoje cidade que leva o seu nome. Era pouca potência diante do que viria, mas foi faísca inaugural — prova de que o São Francisco podia iluminar distâncias.

Décadas depois, em 15 de março de 1948, nasce oficialmente a Companhia Hidrelétrica do São Francisco, a CHESF. O acampamento das obras fincou estacas nas terras da antiga Fazenda Forquilha. Em torno de barracões, escritórios, refeitórios e sonhos ergueu-se uma cidade de sotaques misturados. Cada guindaste plantado era também uma casa nova; cada explosão de rocha, um berço; cada salário, uma feira cheia. Foi assim que a energia que descia pelo leito da cachoeira passou a subir em forma de luz para o Nordeste inteiro — e, com ela, subiu também a autoestima de um povo tantas vezes esquecido.

Fala-se com orgulho: a principal marca de Paulo Afonso foi abrigar a primeira usina subterrânea do Brasil. Imagina: turbinas trabalhando mais de 80 metros abaixo do nível do rio, girando como coração de gigante escondido sob a pedra. A gente cresceu ouvindo esse dado como quem escuta genealogia de família: "Lá embaixo, meu filho, tem uma força que alimenta cidades inteiras".

Datas que viraram capítulos

Entre betoneiras e boiadas, a vida administrativa também se ajeitou. Pela Lei Estadual nº 628, de 30 de dezembro de 1953, Paulo Afonso virou Distrito de Glória; a instalação se deu em 24 de setembro de 1954, marcando o começo de uma identidade mais definida. Poucos anos depois, no dia 28 de julho de 1958 — data que hoje celebramos — a Lei Estadual nº 1.012 concedeu autonomia política: nascia o Município de Paulo Afonso. Em 3 de março de 1966, pela Lei nº 2.314, a cidade tornou-se sede de Comarca de 1ª entrância, irradiando justiça para Glória, Rodelas e Santa Brígida. Cada lei foi como tijolo em parede de casa nova: documento que carimba aquilo que o povo já vivia na prática.

Cidade-abrigo

Dizer que Paulo Afonso acolhe é pouco. Ela abraça. Gente que chegou com mala de papelão hoje tem netos formados; quem veio levantar turbina abriu comércio; quem vinha de passagem ficou; quem nasceu aqui leva consigo o som da queda d’água como sobrenome. A cidade é ponte entre margens, encontro de troncos familiares, sala grande onde cabem santos de devoção diversa e festas de todo calendário: São João, 28 de Julho, romarias, encontros culturais, debates sobre o Velho Chico, memórias do cangaço que ainda ecoam nas conversas de varanda.

E cada vez que volto às margens do rio, lembro que nosso primeiro endereço foi um abraço coletivo: o de uma cidade construída a muitas mãos, muitas crenças, muitas línguas do mesmo Nordeste. Paulo Afonso nos ensinou que progresso pode rimar com partilha; que energia de barragem só vale se também ilumina gente.

Parabéns, Paulo Afonso!

Neste 28 de julho, renovo o agradecimento: obrigado, cidade-luz do São Francisco, por ter acolhido minha família e milhares de outras como mãe generosa de braços abertos. Que continues assim — justa, fraterna, trabalhadora — soprando vento nas hélices do futuro e guardando em tuas pedras a memória de quem te fez. Parabéns, Paulo Afonso! Que cada queda d’água seja bênção, e cada lâmpada acesa lembre o tanto de amor e carinho que recebemos de ti.

* Gilmar Teixeira




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