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Gilmar Teixeira - Proseando

Quando o Passado Galopa no Sertão de Água Branca

Publicada em 13/07/25 às 11:43h - 530 visualizações

Gilmar Teixeira


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Quando o Passado Galopa no Sertão de Água Branca
 (Foto: Divulgação Gilmar Teixeira)

Quando o Passado Galopa no Sertão de Água Branca

* Gilmar Teixeira 

Há cidades que guardam memórias como se fossem cicatrizes vivas cravadas em suas pedras centenárias. Água Branca, encravada no sertão de Alagoas, é uma dessas cidades que o tempo insiste em não apagar. Durante mais uma edição do Cariri Cangaço, foi como se as engrenagens do tempo girassem ao contrário, e, de repente, nos vimos todos de volta à década de 1920, num cenário de pólvora, estratégia e resistência.

Lá estávamos nós: pesquisadores, curiosos, amantes da história e do cangaço, reunidos sob o comando sempre entusiasmado de Manuel Severo. Com ele, nomes consagrados como Antônio Amaury, João de Sousa Lima, Ivanildo Silveira, Edvaldo Feitosa — filho ilustre da própria Água Branca — e tantos outros estudiosos vindos dos quatro cantos do Brasil, em romaria historiográfica.

Mas aquele dia foi diferente. Foi mais do que ouvir palestras, debater fontes ou exibir fotografias antigas. Foi vivenciar, corpo e alma, o assalto que marcou a história da cidade: o ataque de Lampião ao casarão da Baronesa Joana Vieira Sandes.

Ah, a baronesa... figura altiva, viúva do Barão Joaquim Antônio de Siqueira Torres — aquele mesmo que recebeu o título do Imperador Dom Pedro II por ter erguido, com recursos próprios, a matriz da vila. Mulher de sangue azul e coragem sertaneja, não se curvou diante do bilhete de ameaça do cangaceiro. Respondeu com a altivez que só os fortes sustentam: tinha dinheiro, sim, mas para munição dos seus jagunços arrancarem a cabeça dos bandidos.

Foi então que Lampião, sempre mais esperto do que feroz, arquitetou um plano que beirava o teatro. Seus homens, disfarçados de beatos e viúvas, conduziram redes de defuntos — que de mortos nada tinham — carregadas até a boca de fuzis, cartucheiras e punhais. Passaram pelas ruas como se conduzissem o luto, mas carregavam o prenúncio do assalto.

“Acuda, praça!”, gritou um deles à porta da delegacia. “A cabroeira de Lampião tá matando tudo na Várzea!”. O soldado, despreparado e crédulo, tocou reunir com o corneteiro, enviando os volantes para um combate que não existia. E assim, com a cidade desguarnecida, os cangaceiros invadiram o casarão e levaram dali vinte contos — dinheiro escondido num surrão de couro, protegido por Deus e pelas paredes grossas do velho solar... mas não protegido o suficiente do Rei do Cangaço.

Foi esse assalto que projetou Lampião na imprensa como chefe de um grupo próprio. Sinhô Pereira, seu mentor e comandante, já cansado da lida sangrenta, passou-lhe o bastão — ou melhor, a coroa invisível que faria de Virgulino Ferreira da Silva o nome mais temido do sertão.

Mas ali, naquele Cariri Cangaço de hoje, entre encenações e discussões acaloradas, entre o sol cortante e a poeira das ladeiras, nós sentimos mais que história: sentimos memória. Aquele calor de Água Branca era o mesmo que Lampião sentiu. Aquelas ruas, ainda que asfaltadas, guardavam o eco das pisadas apressadas dos cabras armados. A casa da baronesa, ainda ereta, parecia cochichar segredos para quem soubesse ouvir.

É por isso que voltamos sempre. Porque só no chão onde os fatos aconteceram é que a história se revela em sua inteireza. Livros ensinam, sim — mas o chão, ah, o chão sussurra. E nós, atentos, ouvimos.

Voltei de Água Branca com mais do que lembranças. Voltei com o sertão nos ombros e a certeza de que, enquanto houver quem conte, o tempo não se perde. E Lampião, gostemos ou não, continuará cavalgando pela memória do nosso Nordeste.

* Gilmar Teixeira

Membro fundador da ALPA – Cadeira 8




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