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Especiais

Na Semana do Meio Ambiente, breve história do rio São Francisco, razão da vida e do desenvolvimento do Nordeste

Um viagem ilustrada pelo Velho Chico, da nascente à foz. Ontem e hoje.

Publicada em 05/06/20 às 11:55h - 1649visualizações

por Antônio Galdino


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 (Foto: Antônio Galdino e Arq. da Folha Sertaneja)


Esta é a Semana do Meio Ambiente. Um período criado para que todos possam refletir sobre a necessidade de preservar o planeta, a natureza, os rios, porque Meio Ambiente é o ambiente todo.

E é impossível para nós, sertanejos, ribeirinhos das muitas águas que, vez por outra se tornam poucas, não pensar nesse que já se tornou um amigão de todos nós, o rio São Francisco, tão íntimo que o tratamos, sem cerimônia, de Velho Chico.

Vamos então fazer uma viagem, da nascente à foz do rio São Francisco e, faz de conta que, como aquele cientista que viajou para o passado do mesmo lugar, vamos fazer uma experiência e ver esse nosso amigão, o rio São Francisco hoje e ontem, no passado.

Esse foi um rio descoberto às avessas. Primeiro encontraram a sua foz até que um dia encontraram a nascente histórica na Serra da Canastra em São Roque de Minas Gerais. Sim, porque depois encontraram outras.

E, falando desse rio amigo, não podemos deixar de lembrar do poeta, músico e compositor Luiz Tenório, morador de Paulo Afonso há muitos anos, que fez uma linda música falando da grandeza e da importância desse rio mineiro que se fez baiano, pernambucano, alagoano, sergipano, nordestino.

Os longos caminhos, percorridos pelo rio São Francisco, cheios de curvas, descendo e rasgando as serras e se espalhando pelos vales, desde sua nascente, em Minas Gerais até a foz, no Oceano Atlântico, entre os Estados de Alagoas e Sergipe, e deixando no seu trajeto suas riquezas, das mais diversas formas,  inspirou o poeta e compositor Luiz Tenório, morador de Paulo Afonso, que lhe fez esta homenagem no jeito de uma bela canção nordestina.

"Ele veio lá da Serra da Canastra, / se arrastando que nem cobra pelo chão”

Vamos então para a Serra da Canastra e dali seguimos o curso do rio até a foz, como já fizeram muitos pesquisadores, estudiosos, até aventureiros.

No alto da Serra da Canastra ele é frágil, inseguro, precisa de proteção, de que lhe guardem o berço, suas entranhas, suas origens.

Depois, aos poucos vai tomando corpo e logo, já formoso e forte, atira-se no alto do paredão de granito para se espalhar na pradaria, formando a sua primeira e já imponente cachoeira de Casca D’anta, ainda nas terras mineiras.

E continua a sua viagem. Enquanto se dirige ao destino final, a mais de 2 mil e 800 quilômetros, vai recebendo muitos companheiros, afluentes da margem direita e da margem esquerda, aumentando o seu volume de águas.

Nessa viagem na história rio São Francisco, chegamos ao ano de 1852 quando vamos encontrar o engenheiro alemão, naturalizado brasileiro Henrique Guilherme Fernando Halfeld que, por ordem do Imperador D. Pedro II iniciava em Pirapora/MG uma expedição para conhecer todo o rio até a sua foz. Foram 3 longos anos de exploração do rio São Francisco, légua a légua.

De Pirapora até Juazeiro, na Bahia e Petrolina, em Pernambuco que já existiam como missões de franciscanos desde os idos de 1700, o rio todo navegável. Nessas águas, a partir de 1871, o vapor Saldanha Marinho fazia a rota Pirapora-Juazeiro até 1943 quando o barco, com problemas na estrutura, interrompe suas viagens pelo Velho Chico. Em 1971, o gaiola é transferido para a praça em Juazeiro, às margens do São Francisco. Na década de 1990, ele é reformado e a partir do ano 2000., o barco funciona como restaurante e pizzaria.

Mais de uma década antes do Saldanha Marinho, Halfeld, cumprindo a missão que lhe foi dada pelo Imperador D. Pedro II, encontrou os saltos de Pirapora e de Sobradinho na sua viagem pelo rio São Francisco.

No trecho do submédio desse rio, pelo ano de 1954, Henrique Halfeld chega à divisa da Bahia e Alagoas e se depara com um espetáculo maravilhoso: as muitas quedas da Cachoeira de Paulo Afonso.


A missão do engenheiro alemão, naturalizado brasileiro, Henrique Guilherme Fernando Halfeld, resultou numa obra monumental, um relatório de nome gigantesco como grandes foram as maravilhas encontradas ao longo do rio: Atlas e relatorio concernente a exploração do Rio de S. Francisco desde a Cachoeira de Pirapora até ao Oceano Atlantico: levantado por Ordem do Governo de S.M.I. O Senhor Dom Pedro II.

Foram três anos para concluir essa missão, de 1852 a 1854. De Pirapora em Minas Gerais, até o Oceano Atlântico.


Ao chegar às Cachoeiras de Paulo Afonso, o alemão/brasileiro e sua equipe ficaram estupefatos com o grande espetáculo, majestoso, fantástico. Como descrever tanta beleza?

E tão impactante foi a narração de Halfeld sobre a Cachoeira de Paulo Afonso mostrada com tamanha riqueza de detalhes que impressionou e motivou o ainda jovem D. Pedro II a querer conhece-la, e deixou o conforto da corte, no Rio de Janeiro para vir para estes sertões, no que chamou de “viagem às províncias do Norte do Brasil”, e esteve nestas terras sertanejas no dia 20 de outubro de 1859. 

D. Pedro II se sentiu impotente para registrar a grandeza das suas muitas águas brancas e espumosas, como leite, que sumiam nas curvas das pedras, bem em frente à Furna dos Morcegos, espremidas pelos paredões rochosos do cânion do São Francisco.

Nascido em 2 dezembro de 1825, D. Pedro II tinha ainda 33 anos quando, do lado alagoano, no local que ficou conhecido como Limpo do Imperador, viu as quedas da Cachoeira de Paulo Afonso, fez alguns desenhos e escreveu no seu diário:

  • É belíssimo o ponto de que se descobrem 7 cachoeiras que se reúnem na grande que não se pode descobrir daí, e algumas grandes fervendo a água em caixão de encontro à montanha que parece querer subir por ela acima,’ o arco-íris produzido pela poeira da água completava esta cena majestosa.(...) Tentar descrever a cachoeira em poucas páginas, e cabalmente, seria impossível, e sinto que o tempo só me permitisse tirar esboços muito imperfeitos.”Diário da Viagem ao Norte do Brasil.


Ao longo dos séculos, outros olhares, além de Halfeld e D. Pedro II, também se voltaram para a grande cachoeira de Paulo Afonso.

O olhar de Antônio de Castro Alves é o olhar da imaginação. Sem conhecer as grandes quedas d`água, encontrou na sua imponência, pelo que lhe contaram, o cenário ideal para um grande poema sobre a sua luta contra a escravidão no Brasil. O poema é parte da obra Os Escravos, publicada em 1976. E uma das suas estrofes o poeta baiano diz:

A cachoeira! Paulo Afonso! O abismo!
A briga colossal dos elementos!
As garras do Centauro em paroxismo
Raspando os flancos dos parceis sangrentos.
Relutantes na dor do cataclismo
Os braços do gigante suarentos
Aguentando a ranger (espanto! assombro!)
O rio inteiro, que lhe cai no ombro!

Para o cearense Delmiro Gouveia, como nessa tela de Hilson Costa e a sua Usina Angiquinho, construída em 1913 e para o governo federal, através da Companhia Hidro Elétrica do São Francisco, em 1948, as grandes quedas d`água da Cachoeira de Paulo Afonso, já no trecho final, a menos de 300 quilômetros a caminho da foz do rio São Francisco, na divisa dos Estados da Bahia e Alagoas, já foram vistas também com o olhar de empreendedores. De suas muitas águas poderiam gerar outra riqueza: a energia hidroelétrica para iluminar e desenvolver todo o Nordeste. O sonho, iniciado por Delmiro Gouveia, começava a se concretizar pela Chesf, 35 anos depois, como cantou Luiz Gonzaga, na composição Paulo Afonso, de Zé Dantas.

"Delmiro deu a ideia / Apolônio aproveitou / Getúlio fez o Decreto / E Dutra realizou".


O Presidente Eurico Gaspar Dutra visitou a Cachoeira de Paulo Afonso em julho de 1947, antes de dar vida aos Decretos 8.031 e 8.032, que o Ministro da Agricultura, o engenheiro sertanejo de Altinho/PE, Apolônio Jorge de Farias Sales, havia levado para serem assinados pelo Presidente Getúlio Vargas em 3 de outubro de 1945, 26 dias antes de ser deposto. Dutra nomeou a primeira diretoria da Chesf em 15 de março de 1948.

E, novamente, as muitas águas da Cachoeira de Paulo Afonso, águas do rio São Francisco se transformaram em energia como poetizou Luiz Tenório no poema/canção Rio São Francisco:


"Desceu direto chegando em Paulo Afonso

Abraçou a cachoeira, fez aquela alegria

E no impacto da queda da cachoeira

Hoje vemos suas águas transformarem em energia".

No ano de 1974, exatos 120 anos depois da viagem de Halfeld, as águas represadas do rio São Francisco engoliram o Salto de Sobradinho registrado por ele em seu relatório. As águas do grande lago que se formou, 34 bilhões de metros cúbicos, também encobriram as cidades de Casa Nova, Pilão Arcado, Remanso, Sento Sé e Sobradinho e fizeram com que os sertanejos vissem se cumprir o que dissera o beato Antônio Vicente Mendes Maciel, o Antônio Conselheiro - “O sertão vai virar mar”. O lago de Sobradinho (foto), que em 5/6/2020, Dia Nacional do Meio Ambiente estava com cerca de 93 por cento de sua capacidade máxima é a prova disso.


A profecia do beato foi magistralmente poetizada e musicada por Sá e Guarabira e cantada por eles, pelo Trio Nordestino e por muitos outros.

"O homem chega já desfaz a natureza
Tira gente põe represa, diz que tudo vai mudar
O São Francisco lá pra cima da Bahia
Diz que dia menos dia, vai subir bem devagar
E passo a passo, vai cumprindo a profecia
Do beato que dizia que o sertão ia alagar

O sertão vai virar mar
Dói no coração
O medo que algum dia
O mar também vire sertão"

Rio acima, a imensidão das águas, o sertão virando mar, como dizia o beato há 120 anos atrás, o rio São Francisco é, mais uma vez, o grande benfeitor da região. Milhares de quilômetros de canos se espalham pelas suas terras ribeirinhas, irrigando a terra para a produção de milhares de toneladas de frutas para abastecer as mesas do Brasil, da Europa, do mundo. Canta, Luiz Tenório

“Em Petrolina, irrigou a região”

E o rio que virou mar na região de Sobradinho, virou mar também onde eram as quedas de Itaparica e deixou submersa a centenária Petrolândia, em Pernambuco. Ali, somente a estrutura da igreja centenária ficou como um marco dessa destruição.

No lado da Bahia, também a centenária Glória, antiga Santo Antônio de Glória, Curral dos Bois, foi engolida pelas muitas águas do Lago de Moxotó. em todos esses lugares, o sertão virou mar e as águas do Velho Chico, represadas, inundaram as cidades, afogando histórias centenárias. 

Rio abaixo, na região de Paulo Afonso, as muitas águas da Cachoeira, que encantaram o Imperador, os poetas e os sertanejos acostumados ao seu barulho que se ouvia longe e à sua aparência leitosa, essas muitas águas acabaram, como disse o saudoso historiador José Carlos Feitosa em uma conversa poética com o Velho Chico, em março de 1980, há 40 anos

No lado da Bahia, também a centenária Glória, antiga Santo Antônio de Glória, Curral dos Bois, foi engolida pelas muitas águas do Lago de Moxotó. em todos esses lugares, o sertão virou mar e as águas do Velho Chico, represadas, inundaram as cidades, afogando histórias centenárias."Choro contigo, meu Velho Sei que as quedas da Cachoeira Serão, em breve, apenas um retrato na parede..."

"Choro contigo, meu Velho

Sei que as quedas da Cachoeira 

Serão, em breve, apenas um retrato na parede..." 

Ao longo da sua história, as muitas expedições que percorrem o São Francisco, rio acima, rio abaixo, encontraram águas revoltas, correntezas violentas e recantos suaves, muitas cachoeiras e ilhas e praias encantadores. Barcos singrando suas águas levando turistas boquiabertos. Viram suas águas refletindo o dourado do nascer e do pôr-do-sol e sentiram a falta dessas águas em muitos lugares... enquanto ele era recebido com festas e muita alegria em regiões de Pernambuco, da Paraíba, do Rio Grande do Norte, do Ceará.

Ao longo da sua história, as muitas expedições que percorrem o São Francisco, rio acima, rio abaixo, encontraram águas revoltas, correntezas violentas e recantos suaves, muitas cachoeiras e ilhas e praias encantadores. Barcos singrando suas águas levando turistas boquiabertos. Viram suas águas refletindo o dourado do nascer e do pôr-do-sol e sentiram a falta dessas águas em muitos lugares... enquanto ele era recebido com festas e muita alegria em regiões de Pernambuco, da Paraíba, do Rio Grande do Norte, do Ceará.





Depois de ser o caminho das águas, ligando o Nordeste ao Sudeste e Sul do Brasil. Depois de virar mar em Sobradinho, Itaparica e Moxotó, depois de percorrer os caminhos cavados debaixo da terra e ali se transformar em energia em mais de uma dezena de grandes usinas hidrelétricas, o rio retoma o seu leito e segue, espremido entre os paredões de granito do seu cânion de 65 quilômetros até a barragem de Xingó, formando um reservatório de mais de três bilhões de metros cúbicos de água, três vezes mais que o lago de Moxotó em Paulo Afonso.


Ali, novamente gera energia e desce rumo à foz. Abraça a centenária Piranhas que recebeu o Imperador D. Pedro II em outubro de 1859 e se espalha e segue. Alcança a centenária Penedo, chega a Piaçabuçu, em Alagoas e a Brejo Grande, em Sergipe.



Enfim, depois de sobreviver aos metais pesados, às toneladas de agrotóxicos e de esgotos, à infestação da planta baronesa que lhe consome o oxigênio, ao assoreamento de suas margens, ao escoamento de suas águas para os projetos de transposição e proporcionado o desenvolvimento da agricultura, do turismo, de ter levado a luz de Paulo Afonso para todo o Nordeste, o rio São Francisco, nosso velho amigo, o Chico, já cansado de tantas maldades, fraco, some no meio da imensidão das águas do Oceano Atlântico...




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1 comentário


Professor Galdino

06/06/2020 - 12:38:09

Agradeço a todos pelo acompanhamento desse texto. Sei que ele é bem grande para os padrões da internet e peço desculpas pelo tamanho do texto. Mas, pensemos assim: o rio São Francisco é muito maior e merece toda a nossa atenção. Esse é, de fato, uma pequeníssima análise do rio São Francisco, uma proposta de viagem, dentro do possível, com ilustrações de alguns dos seus trechos como o objetivo de mostrar alguns cenários e personagens nesta caminhada ao longo dos últimos séculos. Esse conteúdo também está disponível no Facebook Antonio Silva Galdino e estamos vendo uma forma de disponibilizá-lo em PDF ou outro formato para deixá-lo à disposição dos interessados. Podemos também enviar esse material em PDF para os emails de quem o solicitar pelo meu email - professor.gal@gmail.com. Obrigado a todos.


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