Meu vovô Gal morreu. Assim, no supapo, com a rapidez em que você leu essa frase, morreu.
Minha primeira reação foi tentar racionalizar o máximo possível.
Como neta que mora longe, filha da filha que mora longe, o luto não vem de vez - você é meio engolfado por etapas. É como um móvel no canto errado que me faz bater a canela com toda força e dor toda vez que eu tô desatenta. Eu queria evitá-lo, mudar de caminho pra não encontrá-lo, mas não dá. É como um pilar que sustentava tranquila e despretensiosamente o meu mundo, e que agora me deixou a instabilidade que é aprender a existir num mundo sem ele.
Existe a falta que é uma correspondência direta de vovô.
Fiz dez anos de casamento essa semana - um pensamento me passou de que, naquela época, vovô estava vivo.
Lendo, me lembrei do primeiro livro que ele lançou, quando eu ainda era a única neta e o meu nome figurou pela primeira vez na orelha de uma de suas criações.
Tentei diversas vezes lembrar as palavras exatas que ele me disse no meu aniversário, mês passado.
Lembro dele todo dia quando falo com o meu chefe querido, um paraibano de 76 anos.
Me lembrei que a primeira profissão que eu quis ter na vida foi jornalista, como ele era.
Também existe um efeito colateral do luto que é a incapacidade completa de proteger quem amamos, os que ficam, do sofrimento. Minha primeira reação, a pragmática, logo se desfez em frangalhos frente ao grande buraco que vovô Gal deixou no coração da minha família. Não tenho como protegê-los no plástico bolha do meu amor. Aliás, sentimos tanto justamente porque o amamos tanto.
Sem perceber, desde que vovô morreu tenho me medido pelas minhas inaptidões, faltas e falhas com os meus amados. E elas são tantas que virei uma concha. Um comportamento que o próprio Jovem Gal responderia com um: “Deixa de besteira, garota! A gente vive como dá! Não deu, não deu.”
Não tem dado.
Mas eu vou me esforçar bem muito, pela teimosia que me corre no sangue, pra me medir pela presença, não pela falta.
Quero viver e morrer amando as pessoas e as pautas pelas quais dedico a minha vida, como fez Antônio Galdino da Silva, até meu último suspiro.
E, ao final, partir pra eternidade como um passarinho.
Texto: Lorenna Ferreira - Neta