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Professor Nery

O armazém do espanhol da minha infância

Publicada em 24/06/22 às 00:42h - 249 visualizações

por Francisco Nery Júnior


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O armazém do espanhol da minha infância
 (Foto: da Net)

Doce, doce infância da minha vida. O velho era o provedor. A minha mãe em casa e eu a lamber as panelas. A industrialização era insipiente e os doces eram feitos em casa. Em Salvador, ainda hoje, as crianças recebem “queimados” para lhes aplacar a ira, o calundu ou a impaciência. Queimado, por lá, quer dizer bombom ou bala. Ainda, queimado porque o açúcar era queimado no tacho, enrolado na mão e envolvido em papel em pequenas bolas que nós chamávamos de queimado.   


Encontrávamos queimados para comprar no armazém do espanhol bem como os bolachões mais saborosos da vida; vida inocente de criança. Eles, os espanhóis, eram sérios e sisudos. Não tinham a humildade, por algum motivo qualquer, que nós temos no exterior. Nos olhavam soberbos de cima para baixo como a olhar para ínfimos tupiniquins. E nós aturávamos, como se não estivéssemos na nossa própria casa. Provavelmente éramos superiores sem nos saber assim. Tratamos de uma primeira leva de imigração.  


Como tinham lá suas razões, vindos da sua terra deixada para trás em busca de dias melhores, vamos apenas – e para sair do tema diplomaticamente - nos restringir ao armazém.   


Não era grande coisa. Geladeira de porta de madeira, balcões mais para rudes que para adequados, pacotes e fardos de carne seca pendurados; assim era o armazém da minha infância. Incontáveis vezes fui ao armazém mandado por minha mãe para a compra aos quilos. Faltava alguma coisa para o preparo da refeição e lá ia eu ao armazém, voltando sempre a beliscar o fardo da carne seca que nós chamávamos carne do sertão.   


A transação, escambo, troca de valores, compra ou o que o valha, era rápida de dar gosto. Saía a soma total, nós desenrolávamos a nota de papel bem guardada na mão, recebíamos o troco e rumávamos de volta para casa.   


As coisas mudaram porém. Muitas delas bem certo que para melhor. Mas o tempo gasto nos caixas e guichês do nosso tempo se estendeu para muito além do toma-lá-dá-cá do tempo do armazém do espanhol. Quinze a vinte minutos para pagar uma pequena compra é demais para a paciência do cliente. Chega a ser um escárnio intolerável para quem não sabe ficar parado. Irrita. Consome. Chateia e é – está provado – um grande prejuízo para a economia do país.   


Alguém pode explicar a demora irritante que temos que tolerar para pagar as nossas compras nos nossos caixas modernos, pejados de tecnologia que deveria, ao invés, nos poupar o nosso tão precioso tempo?   


Alguma coisa deve estar errada. Algo precisa ser feito – para que não fiquemos, a toda hora, a nos lembrar do armazém da nossa infância tão rápido a nos despachar.   


Francisco Nery Júnior



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