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Jornal Folha Sertaneja Online
Professor Nery

20 de janeiro, Dia do Fusca – o meu Fusca branco

Publicada em 21/01/22 às 11:29h - 392 visualizações

por Francisco Nery Júnior


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20 de janeiro, Dia do Fusca – o meu Fusca branco
O Fusca branco do Professor Francisco Nery Júnior  (Foto: Do acervo do autor)

Então eu estava em Salvador de férias, um ano de admitido na Chesf. Há pouco tempo formado, carecia, importava e se impunha um carro! Tinha que ser um Fusca. Todo mundo começava com um Fusca. Em cada estacionamento do Brasil, de dez carros, oito Fuscas, o Fusca que começou a ser montado no Brasil em 20 de janeiro de 1959.  Eram os anos dourados da era JK (presidente Juscelino Kubitschek).  


Assessorado e acompanhado pelo ex-colega das Folhas de Pagamento da Companhia Energia Elétrica da Bahia, atual Coelba, Francisco, que já tinha o seu Fusca, parti para a concessionária. E saí com o meu fusquinha que me acompanhou por 36 anos a fio.  


Terminadas as férias, tinha que trazê-lo para Paulo Afonso. A rodagem de 1.000 quilômetros para a primeira revisão foi alcançada em poucos dias. Eu tinha rodado quase toda Salvador. Visitei amigos, revi quase todos os parentes e frequentei todas as praias. Não tinha carteira de habilitação; muito menos experiência no volante.  


E, coisa da juventude, sem experiência de viagem, já foi dito, sem dinheiro e morto de sono, caí na estrada. Evidente que [isto] é um péssimo exemplo e não deve ser seguido. Só estou contando porque sobrevivi.  


Pouco antes de alcançar Alagoinhas, um crique-crique lá pela frente do Fusca. Parei no acostamento e fingi estar mexendo no motor. Um motorista de caminhão parou espontaneamente e me tranquilizou. Fiquei conhecendo a solidariedade do pessoal da estrada. Segundo ele, o problema era no rolamento dianteiro da direita. Segui em frente – com o crique-crique.  


Em Alagoinhas, consegui trocar o rolamento. Se na montagem ou na revisão de mil quilômetros, não haviam lubrificado o rolamento. Reparti. Novamente no trecho, o crique-crique. Agora, era no lado esquerdo. Já doutor no assunto, entrei na primeira oficina que encontrei. Trocado o rolamento da direita e lubrificado o da esquerda, eles me acompanharam pelo resto dos 36 anos de uso do meu inesquecível fusquinha.  


Mas há a questão do sono. Devido a algumas pequenas extravagâncias, para não usar o termo farras, havia o déficit de sono. Por duas vezes despertei com a zoada dos pneus no acostamento. Cantei todas as músicas que sabia de cor. Declamei para mim mesmo, e para o silencio da estrada, todos os poemas que tinha decorado. Saltei do carro algumas vezes e desfilei na estrada. Tudo em vão. Não havia como vencer o sono!  


A duras penas, alcancei Ribeira do Pombal. Era perto da meia-noite. Pensando em segurança, estacionei em frente à delegacia da cidade para tirar um cochilo – dentro do carro – e despertei com a luz do alvorecer e com o cantar dos galos do sertão. Fico a imaginar o que devem ter pensado os madrugadores da cidade as passar pelo meu Fusca comigo dentro – adormecido.  


Meio atordoado e surpreso com a longa soneca e feliz por não ter despertado nenhuma desconfiança, seja de algum citadino, seja de alguma autoridade policial, tratei de ligar o motor e retomei o caminho de volta para Paulo Afonso.  


O meu velho companheiro, servidor confiável e fiel, ainda roda na cidade neste início de ano de 2022.  O modelo é de 1974. Em cerca de quinze viagens pela primitiva estrada para Salvador e em cinco ou seis para Recife, nunca me deixou na mão. Nunca quebrou o motor. Nunca atolou, fosse qual fosse o lamaçal. Eu passava uma segunda marcha e ele, arriando um pouco a traseira, vencia o desafio e saía triunfante. 


Era a primeira revisão. Como marinheiro de primeira viagem, eu procurava ouvir – mais do que falar. Ao meu lado, sentado confiante, na sala de espera a ler as revistas do gênero, um outro dono de Fusca. “A minha pretensão é ficar com o meu Fusca por cinco anos”, arrisquei um início de conversa. “Aguenta nada, ainda mais com essas viagens para Paulo Afonso!”, retrucou, meio carrancudo, o experiente colega. “Aguentou, viu?!” agora poderia lhe ser dito quase 48 anos após a fracassada previsão.    


De vez em quando eu o vejo ainda firme e forte. Às vezes esqueço o meu trajeto e o sigo. De longe, para não despertar o que quer que seja. E uma vez, uma vez caro leitor – tenho que desavergonhadamente confessar – o vi parado, estacionado em um canto solitário da cidade. Dei meia volta, voltei para trás, olhei ao redor, me certifiquei não ser tomado como louco, drogado ou insano e o beijei com o beijo mais profundo que pude lhe dar.  


Francisco Nery Júnior 




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1 comentário


Professor Galdino

21/01/2022 - 14:03:00

O fusquinha, lançado no Brasil pelo presidente JK, que inaugurava a indústria automobilística no País, fez história por onde passou. Virou divertido filme de sucesso "Se meu Fusca Falasse".Sorte dos donos de Fusca e apaixonados por esse carrinho, como o Professor Nery, sorte deles que o Fusca não fala...rss


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