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Professor Nery

O discurso do segurança no sepultamento de Picolé

Publicada em 17/11/21 às 13:18h - 684visualizações

por Francisco Nery Júnior


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 (Foto: montagem ilustrativa)

Placidamente morreu e placidamente o enterramos ao pé do jenipapeiro no pátio central do Ciepa – que custa ser urbanizado. Domingo pela manhã, ainda sem tomar café, Severino, o faz-tudo da instituição, bate à minha porta. Finalmente aconteceu: Picolé, um cão de rua, talvez abandonado por alguém carente de sensibilidade, ou perdido nas ruas e alamedas da nossa ilha, tinha falecido na noite anterior.  


Ele era Picolé, nome singular que alguém inspiradamente lhe atribuiu. Rodou por mais de quinze anos nos nossos pátios e em frente às nossas salas. Algumas vezes nos assistiu. A mim não incomodava. Mesmo inspirava. Num ofício carente de inspirações, a inspiração de Picolé!  


E agora descansa e permanece na nossa escola que ele considerava a sua casa. O Ciepa era a casa de Picolé. Ali reinou e ali viveu. Tirá-lo de lá teria sido arrancá-lo do seu rincão; do seu pedaço.  


Todos o amavam; caqueavam e o protegiam. Picolé, pessoal, era um encanto de cachorro! Daqueles encantos providenciados por Deus.  


Sentirei falta, há que ser registrado, dos fins de semana quando, agora aposentado, levava um tira-gosto em visita a Picolé. E então eu era muito mais compensado do que ele. Ficando velho e aposentado, Deus providenciou a professora Luana para coordenar o bem-estar de Picolé. Pedido feito e respondido.  


No processo do seu sepultamento, o segurança, bom no seu ofício, sem muito tempo para o cuidado que nós outros procurávamos ter em relação a Picolé, de repente se aproximou. Olhou, matutou e deixou sair da boca algo para mim memorável e digno de nota para os que valorizam as coisas espirituais: “É Picolé, obrigado pela sua amizade e pela companhia que nos proporcionou nas noites frias e solitárias que passamos juntos”.  


Após a última pá de terra, Picolé já incorporado ao jenipapeiro que começa a florir, todos nos retiramos e voltamos para casa muito mais dispostos a cuidar dos nossos pets – e dos enjeitados ao nosso redor - com muito mais amor.  


Francisco Nery Júnior  


P.S.  O ex-presidente Jânio Quadros tinha uma cachorrinha sem raça definida. Quando ela morreu, Jânio fez se reunirem ele e os quatro ou cinco amigos de confiança no canto do jardim da sua casa e, na beira da sepultura, discursou em homenagem àquela que, amada, lhe havia devolvido amor. (Fato narrado por Sebastião Nery, um dos amigos mais chegados, em um dos seus livros). Assim fez o segurança em relação a Picolé que todos nós do Ciepa amávamos.




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8 comentários


Edson Barreto

19/11/2021 - 14:34:44

Estou trabalhando esta crônica em sala de aula no Cetepi, atual denominação do nosso querido Ciepa.


Verificando

18/11/2021 - 15:18:51

"Da boca dos pequeninos, suscitou louvores." Os poderosos omissos, fariseus e escribas, a aclamação à entrada triunfal de Jesus em Jerusalém veio dos pequeninos!


Reconhecimento

18/11/2021 - 08:10:29

Rogério e outros vigilantes que nunca deixaram Picolé passar fome.


Reconhecimento

18/11/2021 - 08:06:59

Questão de reconhecimento: Carlão, grande amigo e cuidador de Picolé.


Aníbal

17/11/2021 - 15:16:59

Uma vez que "Picolé" foi tão querido pelos ciepanos que tiveram o privilégio de conhecer o adorável cão e, principalmente pelo segurança que cuidava dele e tinha sua inestimável companhia e tão bem cuidou do seu sepultamento à sombra do jenipapeiro, adote outro preferencialmente, de rua. Parabéns pelos cuidados e amor que tiveste ao meigo cão "Picolé".


Socorro Mendonça

17/11/2021 - 14:06:26

Uma atitude de carinho do segurança!Foram companheiros dias afins. Com certeza PICOLÉ jamais será esquecido!Ele dorme sob a terra , cama de Deus.


Franesijo

17/11/2021 - 14:03:23

Feliz ilustração da direção do site.


Professor Galdino

17/11/2021 - 13:49:16

Embora com foco diferente, o enterro de Picolé me remeteu ao enterro da cachorra, episódio do Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna...


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