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Professor Nery

A raiva de Joaquim, uma história dos velhos tempos de Paulo Afonso

Publicada em 11/11/21 às 00:54h - 201visualizações

por Francisco Nery Júnior


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 (Foto: Imagem ilustrativa - da net, adaptada)

O nome do personagem é fictício. Ele está vivo e recolhido, muito bem recolhido, na sua roça entre cabras e bodes, rodeado de mandacarus e catingueiras. Deve estar feliz. Era meu vizinho e gozava da estima de nós outros.  


Eu vinha descendo, não me lembra se de moto ou a pé; descendo pela rua perto de onde hoje surge o primeiro arranha-céu de Paulo Afonso. Também não me recordo se o Luís Eduardo e a Rodoviária já existiam. Quando chovia, aquilo ali virava um lago de não mais que um palmo de altura, mas um lago. O sol batia e a água brilhava. Dava para esquecer estarmos no Nordeste. A Natureza, sempre pródiga, ali represava a água da chuva sugerindo aos nossos governantes represá-la a tempo e a fora de tempo, em todos os lugares possíveis, para o bem dos nordestinos. Água é vida e, assim posto, o seu represamento para fins de sobrevivência deveria ser prioridade primeira e indiscutível de qualquer gestor, do mais grande ao mais pequeno, do Nordeste.  


E eu descia. Descia e bati de frente com Joaquim. Ele, aquele vizinho seguro e confiante, de papo daqueles dos bons sobre os bons tempos, não parecia bem. Estava estranho e com a fisionomia atravessada. Se mostrava, podemos dizer, perturbado.  


Preocupado, joguei algumas palavras fora e, como não surtiram o efeito desejado, indaguei o que estava acontecendo. O meu vizinho Joaquim, plácido e maduro de costume, agitado andou em minha direção. Os tempos não eram de pandemia e pudemos conversar cara a cara. Na mão esquerda, uma lata de querosene, caixa de fósforo no bolso e, na mão direita, um parabélum não sei se 32 ou outro número qualquer.  


A minha preocupação de amigo só fez aumentar. Com arma e fogo não se brinca. Ainda não era crime andar armado sem o devido porte concedido, mas algo desastroso poderia acontecer.  


Minutos antes, começo de noite avançado, um assaltante havia levado o relógio do nosso Joaquim! Opróbio maior?! Desmoralização intolerável a merecer uma resposta à altura da ousadia do ladrão? Sim, assim pensava Joaquim, cabra dos tempos do fio de barba como garantia e da palavra dada como documento registrado em cartório; cabra honrado e respeitador do bem alheio. Carecia uma resposta a nível da ousadia e pronto acabou.  


O treco, a máquina ou o cospe fogo, sim. Para ladrão, muito mais para assaltante, importa manter-se limpo. Fora de cogitação o envolvimento com arma branca e a sujeira advinda. Manter a dignidade e a limpeza do tiro! Mas, e a lata de querosene e a caixa de fósforo?  

Morto e por terra o pobre infeliz, serviriam para incinerar o agora cadáver. A vingança, ou a resposta se o leitor preferir, tinha que ser à altura da ousadia cometida.  


Prudentemente - covardemente pode redarguir o leitor -, retomei o meu caminho para casa. O homem estava furioso e acreditei serem improdutivas quaisquer tentativas de dissuasão.  

Se o infeliz infrator escapou ou subiu para as nuvens em fumaça, não sei. Resta ao meu amigo, o suposto crime já prescrito, ele octogenário, se pronunciar.  


Francisco Nery Júnior  


P.S.Notas para o estudante de português - A expressão não me lembra é própria de Machado de Assis. Mais grande e mais pequeno, construção possível no português de Portugal. 




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1 comentário


Vamos lá

19/11/2021 - 07:03:02

Vamos lá, seu Joaquim. Diga quem você é para receber um abraço nosso


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