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Jornal Folha Sertaneja Online
Professor Nery

E morre, alquebrado, Zé pensador

Publicada em 27/04/20 às 00:53h - 1296 visualizações

por Francisco Nery Júnior


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E morre, alquebrado, Zé pensador
O Pensador uma das mais famosas esculturas de bronze do escultor francês Auguste Rodin ganhou uma réplica autorizada da obra que está nos jardins do Instituto Ricardo Brennand, no Recife/PE  (Foto: www.flickr.com )


De início, alquebrado, não abatido. Alquebrado ou esquecido. Adoramos esquecer os que pensam. Alquebrado... por força da carga intolerável que lhe pesava nas costas. Curvado sob a ignomínia do desprezo. E mais, da calúnia. Assim passou, pelo vale da vida, o nosso amigo, nome fictício, José o pensador. Das profundezas da vida, para os píncaros da liberdade – da verdade.


A vida lhe foi um “velar de insônia atroz”. Como não ter sido se ele pensava?! E pensando, chegou à verdade. Se bem que, “o que é a verdade”? “Eu sou a verdade”, está escrito. Foi do amigo e colega Tirone, em sala de professores no Ciepa, a indagação-provocação, tarefa básica do educador, “o que é a verdade?”. Tirone partiu e deixou saudade. Ficou um vazio. 

Na verdade, ninguém é insubstituível, mas muita gente faz diferença.


Insisto que a linguagem não está alta para o leitor. Educador que se preza sabe que ele [o leitor] é capaz. Traz dentro de si a capacidade de se desenvolver. De chegar à verdade, poderíamos dizer. A coisa está lá no cerne da sua alma. Em tempo de epidemia, poderíamos dizer que lá está o vírus da verdade. É só preparar o terreno e abrir os ouvidos; escancarar os olhos. Então verá.


E o nosso Zé partiu. Sozinho para evitar aglomeração. O coronavírus pode matar! Ele, dentro do caixão, sabia-se só não por força da Covid-19. Estava sozinho porque pensava. Escanteado porque pensava. Incomodava ao pensar. Mesmo os pregadores de plantão se sentiam incomodados. E mais esses! O pensar do Zé ameaçava os seus penduricalhos, fruto da malandragem.


O Zé passou a vida no cantinho. Gestos, hábitos e aparência simplória, lá estava o Zé. Aqui e acolá, entrava um para consultá-lo. Na surdina. Alguns pareciam temer o quadro. Um figurão a consultar o Zé? Perigoso para sua carreira. Prejudicaria a sua ascendência. Zé poderia ser um deles com salário e projeção iguais. As chances que lhe batiam na porta, ele as desprezava. Não valeria a pena. O preço seria alto. O Zé pensador de crina alta não aguentaria. Morreria antes do tempo. Talvez de tédio.


Perdemos o nosso Zé.  A vida o perdeu, melhor dizendo. A beleza da criação não será mais vista e apreciada por ele. Não mais ouvirá os seus louvores. Para que mundo sem um Zé para apreciá-lo? A beleza da criação é referendada pela apreciação dos pensadores da vida. Para isso estamos aqui.

E perdemos o nosso Zé.


Francisco Nery Júnior 




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3 comentários


Paulo Lopis

27/04/2020 - 09:16:45

Verdades ou metáforas, mais um texto literário para refletirmos, do mestre professor Francisco Nery.


Isac de Oliveira

27/04/2020 - 08:25:26

Belíssimo texto meu caro.


Maria do Socorro

27/04/2020 - 05:49:47

Excelente metáfora. Impossível não refletir sobre o contexto atual e os milhares de Zés pensadores, que morrem abandonados e sozinhos!


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