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Professor Galdino

“Ai que saudades que eu sinto, das noites de São João”

Publicada em 24/06/21 às 14:12h - 858 visualizações

por Antônio Galdino


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“Ai que saudades que eu sinto, das noites de São João”
Jorge de Altinho - São João em Paulo Afonso em 2008  (Foto: Arq. do jornal Folha Sertaneja)

As redes sociais, os grupos de Whatsapp, desde o começo da semana, se mostram coloridos, nas vibrantes imagens dos festejos juninos. Em cada uma delas, o derramar de saudades dessa autêntica festa popular nordestina, tanto na imensidão de cores, como nas músicas e nas comidas típicas da época.

De fato, de novo chega o mês de junho e mais uma vez as ruas de Paulo Afonso e de todas as cidades nordestinas, que viviam sempre em grande burburinho nesses dias de festas juninas vivem os dias de uma cidade esvaziada pelos decretos municipais e estaduais que impedem as pessoas do exercício do ir e vir livremente.

O texto publicado nesses dias, neste site, pelo professor Francisco Nery, nos fala da singeleza e da pureza do povo nordestino ao festejar os santos do mês de junho – Santo Antônio, casamenteiro, São João, do carneirinho e São Pedro, porteiro do céu.

É a doce imaginação do sertanejo que festeja, no mês de junho, com fundamento na tradição católica de louvação aos seus santos, a colheita que foi farta porque, na sua crença, foi grande a chuva no dia 19 de março, dia de São José, o pai de Jesus...

E, nos vem à memória o baião criado por Zé Dantas e Luiz Gonzaga chamado “Noites brasileiras” e gravado pelo Rei do Baião em 27 de abril de 1954, no lado A de um disco de 78 rotações. No lado B estava gravada a polca “Lascano o cano”. A música “Noites brasileiras” foi lançada em julho de 1954 e relançada oito anos depois, em 1962, no LP São João na Roça da RCA Victor.

Escrita há 67 anos, a música parece ter sido feita há pouco para nos dizer da saudade dos festejos juninos engolidos pela pandemia...

Ela nos remete à essência do puro São João sertanejo, de raiz, e descreve, verso a verso, o cenário das noites sertanejas de São João...

“Ai que saudades que eu sinto
Das noites de São João
Das noites tão brasileiras nas fogueiras
Sob o luar do sertão

Meninos brincando de roda
Velhos soltando balão
Moços em volta à fogueira
Brincando com o coração
Eita, São João dos meus sonhos
Eita, saudoso sertão, ai ai...”

É uma boa lembrança que também nos leva a refletir que o São João puro, autêntico, dos sertões nordestinos, vem, a cada ano perdendo essa pureza que é a sua maior grandeza.

Em muitas músicas ditas juninas, os seus compositores e intérpretes têm dado a elas uma conotação maldosa, de duplo sentido, distorcendo a sua originalidade.

Isso também tem se visto muito no que se refere às quadrilhas juninas que perderam, em muitos casos, a sua originalidade e tanto as músicas como as roupas dos participantes destoam e muito de suas origens.

Hoje, quadrilhas juninas têm sido classificadas nos primeiros lugares de muitos concursos apresentando coreografias que, embora bem ensaiadas e executadas, embora estas chamativas roupas estilizadas dos participantes da quadrilha sejam totalmente estranhas às suas origens puras, da roupa simples, mas roupa de festa, do povo igualmente simples do sertão.

Embora respeitando os contrários, vejo essa caracterização abusada e desrespeitosa às tradições juninas e me reservo ao direto de pensar assim.

A meu ver, como sertanejo, a singeleza da festa, tanto na maioria das suas músicas, especialmente quando se trata de intérpretes que ganharam fama nacional, quando na realização do próprio evento, se transformou em grandes investimentos de mídia e de prefeituras. Mas, claro que ainda existem grandes representantes da festa, herdeiros de Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Sivuca e outros sanfoneiros que fizeram história...

Falando em festejos juninos vem à lembrança que em Paulo Afonso, nos idos tempos do Prefeito Abel Barbosa, que apoiava esse evento autêntico e em um município que tem o dia 24 de Junho como feriado municipal, em respeito às tradições sertanejas, naqueles distantes anos de 1979 até 1985, as festas juninas eram realizadas em várias ruas da cidade e em cada uma havia um grande empenho na ornamentação, na apresentação da melhor quadrilha junina.

Era assim nas ruas Santo Antônio, Castro Alves, Barão do Rio Branco e muitas outras, e mais pra frente apareceu a grande festa da Rua D, e o alto nível das boas quadrilhas juninas dessas ruas motivou que se tivesse a ousadia – na época eu atuava como Diretor de Comunicação, Turismo e Cultura – de fazer uma seleção dos melhores pares de cada quadrilha e montar uma quadrilha junina top e fomos para Salvador, concorrer em um concurso realizado por uma emissora de televisão da capital.

Viagem sofrida, hospedagem meio improvisada e comendo os grandes sanduíches do Baitacão, os participantes da quadrilha junina de Paulo Afonso entraram na quadra para concorrer com feras, quadrilhas famosas da Bahia, vencedoras de vários anos. Uma delas, tida como a favorita, e foi mesmo para a final do concurso, era patrocinada por um deputado baiano e chegou ao ginásio em dois ônibus enormes, com ar condicionado. A roupa dos componentes desta quadrilha, estilizada e de muitos panos arregalava os olhos da numerosa plateia das arquibancadas do ginásio onde se realizava o concurso.

Na nossa simplicidade, mas com o autêntico ritmo sertanejo nos pés e mãos de cada membro, selecionado a dedo pelos dirigentes de cada quadrilha, enfrentamos a fera na disputa do troféu. E, no final da competição a quadrilha junina de Paulo Afonso estava empatada com a famosa de Salvador, em primeiro lugar.

Como ninguém esperava que um grupinho vindo da desconhecida Paulo Afonso, pra eles, lugar perdido lá pelo norte do Estado, fosse fazer sombra à maior, mais rica e mais respeitada quadrilha junina da Bahia, só havia um troféu de primeiro lugar.

A essa altura, a autenticidade da quadrilha junina de Paulo Afonso já havia conquistado a plateia e a grande maioria aplaudia de pé.

Disse então aos organizadores, que não sabiam a quem entregar o único troféu de campeão: - É justo que a quadrilha junina de Paulo Afonso, que viajou quase 500 quilômetros para participar desse concurso leve o troféu. A quadrilha de Salvador, por ser daqui mesmo recebe o seu troféu depois. Recebemos o apoio da plateia com aplausos e gritos de campeão e trouxemos o troféu para Paulo Afonso.

Gilvan, que trabalha na Secretaria de Cultura e seu irmão, Joãozinho eram dois dos responsáveis por quadrilhas juninas e estavam lá, e podem contar mais sobre esse feito histórico...

“Ai que saudades que eu sinto”... dizia um, no grupo de Whatsapp, lembrando desse São João de antigamente...

Mas, também vêm à memória e certamente todos lembram das grandes festas da Avenida Apolônio Sales, na Ilha de Paulo Afonso, e do Campo do Flamengo no BTN e também do Parque de Exposições onde milhares de pessoas, 30, 50, até mais de 60 mil pessoas se aglomeravam para assistir aos shows de grandes nomes da música brasileira.

Muitos desses artistas, é certo, nada tinham a ver com São João, mas eram e são nomes respeitados no cenário musical brasileiro e a Prefeitura, a grande patrocinadora desses eventos, encontrava nesse período a oportunidade de oferecer esses shows para a população de Paulo Afonso e para milhares de pessoas que chegavam quase na hora do show principal em centenas de Vans de todas as cidades mais próximas...

Milhares de pessoas, todas as noites, se juntavam para cantar com Padre Fábio de Melo, Jorge de Altinho, Leonardo, Fagner, Os Aviões do Forró e muitos, muitos, muitos outros ao longo dos anos todos, numa agitação efervescente que a pandemia acabou...

E, nesse rebuscar dos Sãos Joãos de outros tempos, mais antigos e mais recentes, vem a minha mente o doce encontro com grupo de meninas que, acompanhados dos pais, também músicos, cantavam o autêntico forró e até se inspiravam muito em Dominguinhos.

Ainda guardo o DVD dessas meninas paraibanas que nem eu. Era o Clã Brasil de que fazia parte a paraibana Lucyane Alves que depois explodiu como Lucy Alves, a grande intérprete nacional, que venceu o “The Voice Brasil” cantando Aconchego, de Dominguinhos e tornou-se atriz vivendo a personagem Luzia da novela O Velho Chico e segue espalhando o seu canto e o seu encanto pelo Brasil a fora.

Deixo uma sugestão aos organizadores de eventos da Prefeitura. Quando passar esse furacão chamado Covid, programem a vinda novamente do grande poeta Flávio Leandro e de Lucy Alves para alegrarem os sertanejos de todos os lugares, até das terras do sul/sudeste que moram em Paulo Afonso e para atrair, de novo, pra cá, também os milhares de moradores destas terras vizinhas, igualmente sertanejas... 

E que venham Jorge de Altinho, Zezinho da Ema, e Maciel Melo, e Santana... Sem esquecer de destacar os grandes músicos, sanfoneiros da terrinha. A lista é grande...Dá pra fazer uma festa de São João o ano inteiro...

Lembranças da Vila do Forró, dos últimos anos, mais moderninha e da figura de Mama Vitória, sempre associada à essa festa, pela sua alegria intensa...

Nesse baú de memórias, quando percebemos, estávamos na quadra do COLEPA e nos seus arredores, vendo a animação dos famosos São Joãos do COLEPA quando os inconfundíveis acordes da sanfona ou do teclado de Toinho dos Dissonantes, outra grande dessa arte, rasgavam o ar, atraindo a todos para dançar na quadra...

Não posso deixar de me referir a um grande sanfoneiro, um dos maiores de Paulo Afonso que tinha o acordeon associado ao seu nome: Enoch do Acordeon que animava até recentemente a Vila do Forró de Paulo Afonso e faleceu em 24 de maio de 2019, faltando um mês para o dia de São João.

Em tempos de festas juninas – e a lembrança devia ser permanente, todos os dias – não se pode esquecer de outro grande músico, que anda muito doente há um bom tempo, considerado um dos maiores ou o maior sanfoneiro dessa região, que tocou muitas vezes com Luiz Gonzaga, inclusive no show beneficente para a Maçonaria que o Rei do Baião fez em Paulo Afonso, no então Estádio Ruberleno, hoje Álvaro de Carvalho e que tive o privilégio de apresentar, como narra o escritor João de Souza Lima no seu livro 100 anos do Rei do Baião e a sua passagem por Paulo Afonso.

Falo do grande músico Elias Nogueira, do conjunto Os Satélites, que tocou muitos anos no Coliseu Show que eu apresentava com Nilson Brandão e Rubem Marques no antigo Cine Coliseu.

Elias Nogueira tem uma história e uma contribuição à música sertaneja e, de forma bem especial como representante de Paulo Afonso, e nunca foi devidamente reconhecido.

E Deca do Acordeon outro defensor dessa música autêntica nordestina. Lembro de Deca tocando magistralmente quando fiz o lançamento do meu livro De Forquilha Paulo Afonso – Histórias e Memórias Sertanejas, na pérgula da piscina do CPA numa noite em que ali estavam quase trezentas pessoas, inclusive vários ex-prefeitos como Abel Barbosa, Paulo de Deus, Luiz de Deus e o prefeito da época, Anilton Bastos. E Deca do Acordeon lá, lembrando a todos as belezas do nosso Nordeste, com sua sanfona...

Talvez, nesses dias “modernosos” em que vivemos, alguns até tenham estranhado o que é que um sanfoneiro, Deca do Acordeon, estava fazendo no lançamento de um livro...

O nosso abraço a Jorge Brandão que virou o xodó do pessoal da terceira idade em eventos memoráveis...

Citei apenas alguns músicos e sanfoneiros de Paulo Afonso. Mas estendo a minha homenagem a todos eles, quase sempre anônimos, das bandinhas de forró Pé-de-Serra, esquecidos todo o tempo e lembrados, de vez em quando por uma escola, um evento social...

Hoje, como uma forma de se combater esse vírus a ordem é que todos permaneçam em casa e as ruas das cidades, especialmente coloridas e cheia de calor humano nesse tempo, estão sem nenhuma decoração que lembre esse período de festas no Nordeste, que acabou contagiando outros estados.

A poderosa Campina Grande, na Paraíba, com o declarado maior São João do Brasil, não vai, mais uma vez se digladiar, com Caruaru, em Pernambuco, que se gaba de ter o maior São João do Mundo...

Por aqui, por estas terras sertanejas, mesmo sem ostentar títulos de grandeza, fica o vazio dos encontros animados dos amigos, de se provar as comidas típicas da época e resta cantar, assobiar, lamentar com os versos grandiosos do médico Dr. José Dantas, de Carnaíba, terra de Lisette e de Lindinalva Cabral, estes versos escritos em 1954 e cantados em todos os rincões deste Nordeste pelo imortal Luiz Gonzaga. 

Parece que este baião foi escrito hoje...

“Ai que saudades que eu sinto
Das noites de São João
Das noites tão brasileiras nas fogueiras
Sob o luar do sertão...

..........

Antônio Galdino da Silva




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4 comentários


J.Caetano Valladares

05/07/2021 - 16:30:37

Excelente texto memorialista,não si pelo registro histórico,mas também pela pureza poética emprestada pelo Galdino a festa mais brasileira.Sao João . Parabéns.


Isac de Oliveira

24/06/2021 - 17:30:42

Em verdade nunca havia passado por nossas cabeças tempos surreais como esses, ou que haveria um tempo em que mês de junho seria sem as festas de São João.


Anibal Alves Nunes

24/06/2021 - 15:47:30

Excelente texto. Uma retrospectiva que nos faz reviver momentos felizes, festejos maravilhosos em toda a cidade, rua por rua, bairro por bairro. Dezenas de quadrilhas juninas empolgaram a sociedade e geraram turismo. Como esquecer os maravilhosos "arraiás" de Zé Pasté, Mama Vitória e tantas ruas enfeitadas para o período junino? Infelizmente não tivemos mais pessoas que defendam a tradição junina de Paulo Afonso como antes. Lamentável.


Socorro Mendonça

24/06/2021 - 15:18:03

Parabéns Galdino! Belíssima reportagem dos idos e saudosos festejos juninos em Paulo Afonso.Lamentável, que tão rica tradição nordestina, perca_ se no tempo. Reafirmo minha saudade e meu PARABÉNS MERECIDO


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