Sexta-feira, 25 de Setembro de 2020
COLUNISTAS: Professor Nery

Para os estudantes de português – erros, aberrações e inconveniências

Publicada em 15/09/20 às 14:41h - 148 visualizações

por Francisco Nery Júnior


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 (Foto: Imagem ilustrativa)


Navegando em outras línguas, podemos afirmar a beleza do português. É realmente uma flor, produzida e enriquecida no Lácio. Vamos a um breve passeio, “fumegando, apitando, chamando os que sabem do trem”. “Nessa fonte está escondida (sic) o segredo dessa vida, ainda que seja de noite” (Raul Seixas).   

Evidente que deixamos a cartilha de lado, a rabugice dos donos titulados da língua, certos que, na muralha, algumas pedras estão sendo acrescentadas. Os benefícios podem cair nas mãos dos vestibulandos do Enem e nas mãos e no corpo todo dos concursandos. Uma vez caíram nas minhas. E estou aqui!   

Vamos aos saltos:   

. “Um dos que mais falou”. O que é isso? A pergunta é minha como foi de Ferreira Goulart. Embora a construção seja considerada certa, não frequenta a minha seara. Doem-me os ouvidos. Se outros também falaram, porque não dizer simplesmente “Ele foi o que mais falou”?   

. “No entretanto”. Banido. A expressão é “entretanto”. Se melhor se aplicar ao contexto, pode-se empregar “No entanto, ...”;   

. “Eu estou a escrever.” Embora “eu estou escrevendo” esteja correto, a construção vem do inglês. A construção no vernáculo é “eu estou a escrever”. (Quesito semelhante já caiu em concurso do Banco do Brasil.);   

. Esqueça o “aí” na linguagem escrita ou oral. Use apenas quando indicar localização. Observe que os nossos jornalistas usam e abusam do “aí” sem nenhuma função na frase (oração ou sentença);   

. “Eu nasci há dez mil anos atrás.” Paulo Coelho reconheceu esta derrapagem. Diga “eu nasci há dez mil anos” ou “eu nasci dez mil anos atrás”. Ou uma coisa ou outra. Nada de pleonasmo, redundância; dizer uma coisa já dita ou expressa;   

. “Adevogado”. A palavra não mudou. Continua sendo advogado;   

. “Pego”. Particípio [passado] que “pegou”. Embora correto de acordo com a regra de empregar o particípio sintético com ser e estar e o analítico com ter e haver (ser pego/ ter pegado), “pego”, horrível para o ouvido, também banido da minha seara;   

. Que é isso de pronunciar o “r” com som de “s”? Pronunciar-se “partido” como se fosse “pastido”? Mais um modismo – ou aberração - trazido do sul pelas nossas TVs a cabo. Já começamos a ouvir “farol” no lugar de sinaleira e “seta” para sinalizar as viradas;   

. As palavras entraram no português pelo acusativo singular, caindo o “m”. Como as palavras da primeira declinação eram femininas, com a queda do “m” passaram a terminar em “a”, vogal temática da primeira declinação. Daí convencionou-se que as palavras terminadas em “a”, em português, seriam consideradas femininas. Palavras que vieram do grego terminadas em “a” não são femininas (dilema, trema, teorema, etc.);   

. Evite a nossa corruptela “tomar de conta”. A expressão verbal é “tomar conta de”. Toma-se conta de alguém ou de alguma coisa. O caseiro toma conta do sítio. O meu irmão tomou conta da herança, vá tomar conta da sua vida, etc.;   

. “Deixe eu ver”. O “eu” na expressão não é o sujeito da sentença. Se não é sujeito, e sim objeto, deve ter a forma de “me”. “Deixe-me ver” é a forma correta no português culto. Para não dar a impressão de pedantismo, todos usamos a primeira forma, no dia a dia. A rigor, não está correta;   

. “Meu pai falou para eu estudar bastante”. “Eu” é o sujeito da segunda sentença. A forma “mim” deve ser usada apenas quando exercer a função de objeto ou adjunto; “Meu pai construiu uma casa para mim”, “Ela não vive sem mim”, etc.;   

. Evite barbarismos (palavras que “invadem” a nossa língua). Se temos “entrega” e “espetáculo”, por que empregar “delivery” e “show”? ;   

. “Assistir” significa ajudar ou ver, contemplar. O assistente do cirurgião assiste o cirurgião. Ele é assistente, isto é, ele ajuda o cirurgião. Quando em casa, ele assiste à televisão, ou assiste a um filme, isto é, ele vê um filme. Verifique que o verbo assistir é regido pala preposição “a” quando significa ver;   

. O presente perfeito (verbo ter no presente e verbo conjugado no particípio [passado) é muito usado em línguas como o inglês e o francês. Indica uma ação iniciada no passado que perdura até o presente. “Eu tenho trabalhado muito” significa que você trabalhou ou começou a trabalhar lá pra trás e continua trabalhando. Se você quiser realçar que o trabalho é realmente contínuo, sem interrupção, você pode empregar o presente perfeito contínuo: “Eu tenho estado trabalhando tanto!”;   

. Na grande Salvador, você vai ouvir “eu estou retado”, no sentido de estar chateado, nervoso, etc. Na Paraíba e em certas regiões, diz-se “arretado”. Ambas as formas vêm de “arreitado”, estado do animal desejando copular, incitado pelo cheiro do cio da fêmea;   

. “Não me lembra ter cometido essa falta.” Esta construção é de Machado de Assis. Dizemos “não me lembro de ter cometido essa falta”. Se num teste ou concurso, prefira a segunda opção, a menos que você queira comprar alguma briga e tenha condições de argumentar;   

. Repare o aviso em certas portas: “É proibido entrada” ou “é proibida a entrada”.  Nunca “é proibido a entrada”;   

. O termo “gay” já está incorporado ao português. Originalmente significa “alegre” em inglês. De algumas décadas para cá, sofreu modificação no semantema e passou a significar “homossexual”. Em livros e escritos do início do século passado, você vai encontrar o termo “gay” com o sentido exclusivo de alegre;   

. “Cadê” é uma corruptela que usamos em português. “Que é feito de” passou para “quede” que passou para “cadê”. (Que é feito do meu livro? Quede meu livro? Cadê meu livro?);   

. “Evidente que”. Use “evidentemente” em outro contexto. “Evidente que o Brasil vai decolar”, “evidente que eu me esforço”, “evidente que amamos Paulo Afonso”. Agora, “evidentemente não cometemos crime algum”. 

. Vamos, agora, à temida crase. Estava no meu birô no SPOM quando o colega Ivanildo me pediu para responder um questionário sobre crase.

Eu argumentei que estava “enferrujado” posto me dedicar mais profundamente a inglês. Ele insistiu e eu respondi, lhe devolvendo o questionário.

Ele voltou em poucos minutos. Abriu a porta da sala e me olhou como se olha para um guru. Eu até perguntei se ele estava a ver um fantasma.

Sua observação: “Pô, o cara acertou todas!”. A minha dúvida é se eram onze ou treze questões.

Após a observação, Ivanildo me confessou que as questões tinham feito parte do exame vestibular da Universidade Federal de Sergipe.

Antes que você me olhe como me olhou Ivanildo, ou pense ver um fantasma, veja por que razão não foi difícil para mim acertar todas as questões.

Para início de conversa – para entender o processo “crase” – é necessário que você se aproprie de três fundamentos:

primeiro, crase significa fusão. Naquele “a” existem dois “as” que se fundiram em um só. Imagine duas imagens se juntando na sua televisão.

Também se conscientize que aquele sinal que aparece em cima do “a” é um acento grave usado para indicar que houve uma crase (fusão, os dois “as” se fundiram em um só “a”). Lembre-se que crase é o nome do processo de fusão.

Em terceiro lugar, é fundamental que você saiba que “a”, em português, pode ser artigo (a menina) ou preposição. Se você diz que alguém deu o livro a José, o “a”, nesse caso, é uma preposição. Claro que você nunca dirá que “A José recebeu o livro”.

Já devidamente fundamentado, considere a frase “José foi para Portugal”. Se trocarmos Portugal por França, teremos “José foi para a França”. Até aqui, nenhum problema. Por uma razão qualquer, que não vem ao caso, vamos trocar a preposição “para” para a preposição “a”. Teremos então: “José foi a a França”. Poderia ficar assim. Por força talvez de estética ou de eufonia (para que você não tenha que grifar e pronunciar dois “as”), a regra é que você ‘funda’ esses dois “as” em um só “a”. A colocação do acento grave em cima do “a” serve apenas para que quem lê o que você escreveu saiba que você fundiu um “a” preposição com um “a” artigo definido; que você realizou uma crase.

Não raras vezes, ouvi algum aluno desabafar: “Agora eu entendi o que é crase!” 

E deixamos o espaço para que o leitor, beneficiário último de tão belo e sutil meio de comunicação – o código; o português –, faça também os seus acréscimos.   

Francisco Nery Júnior    

N.R. O professor Francisco Nery Júnior é licenciado em português, inglês e latim pela Universidade Católica do Salvador e tem cursos de aperfeiçoamento em inglês nos Estados Unidos (Texas, Massachussets e Flórida) e em francês na França (Paris e Toulouse). 




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2 comentários


O autor

16/09/2020 - 10:36:35

Os autores das placas adicionadas que ilustram a matéria são imunes de condenação. Provavelmente não frequentaram a escola devido à luta pela sobrevivência em um país tão desigual. Não os consideramos inferiores a nós.


O autor

15/09/2020 - 15:46:29

Queira o leitor desconsiderar a "arrumação" do item referente ao assunto crase. Meus problemas com a máquina...


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