Quarta-feira, 15 de Julho de 2020
COLUNISTAS: Professor Nery

Um gato que nos fez ver a Deus

Publicada em 28/06/20 às 14:25h - 172 visualizações

por Francisco Nery Júnior


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 (Foto: dreamtime)


Prestando bem atenção, não temos uma eufonia no título. Temos uma cacofonia. Os sons, leitor, como que se atropelam e os ouvidos reclamam. Até tentamos preposicionar o objeto [direto]. Fica assim, porém, porque só assim exprime o que nos vai na alma.


Um gato, um simples gato, velho e doente, cambaleante das pernas, nos apareceu. Há cerca de dois meses, na porta do quintal, nos apareceu. Nós o alimentamos. Por que não? Para isso ele nos caiu na nossa porta. E pela porta dos fundos, o velho e alquebrado gato nos entrou na alma.


Ao abrir a porta pela manhã, lá estava o nosso hóspede de honra a nos assegurar, com a sua frágil condição, a presença de Deus. Ainda bem que Deus é Deus dos fracos – e humildes de coração. São eles que nos confundem, dizem as Escrituras. O gato nos enchia de alegria e de prazer ao lhe servirmos o que Deus nos encomendou. Ele era parte da criação. E, como parte dela, carecia de assistência e compreensão. O gatinho amarelo passou a ser parte integrante da nossa vida diária.


Tínhamos o máximo de cuidado com Otta, nosso cachorro de longa data, que não queria acordo nem consegue entender o nosso arrazoado. Ele veio e se estabeleceu para ser inimigo dos gatos e assim cumpria o seu papel. Tentei várias vezes convencê-lo do contrário para me decepcionar a cada vez. Otta o odiava de um ódio mortal como alguns odeiam certos preceitos de Deus. Ainda tinha Cindy para ajudá-lo na tarefa, Cindy, a minha nora canina que nos visita a cada dois ou três dias para alegria de Otta. Felizmente, não conseguiram destruir o nosso hóspede-amigo.


Ele já chegou alquebrado. Velho e doente, não esbanjava vigor. As suas forças já se tinham esvaído na quase totalidade. Marchava lenta, mas decididamente, em direção à porta dos fundos. Queria comida e em troca nos dedicava amor e doçura.

Já na reta final, desapareceu por seis ou sete dias. Conformados com os ditames da criação, nos resignamos à sua memória. Que havia sido feito dele? - conjecturávamos. Apodreceu em algum canto sombrio? Serviu de comida aos urubus? Encheu mais um pouco a lata de lixo de alguma casa próxima?


De repente apareceu. Magro e remelento reapareceu. Surgiu na frente de Otta que, sem se fazer de rogado, mostrou os dentes. Tive tempo e reação suficientes para conter Otta que teimava em pegá-lo. Tentamos alimentá-lo e insistimos para que bebesse um pouco d’água. Sem sucesso tentamos.


Recolhido em um dos cantos do quintal, abrigado em um antigo refúgio de cágados, pacientemente esperou o seu destino. Fiz-lhe alguns agrados a afagos. Na última vez, simplesmente me lançou o seu olhar de morte. Baixou a cabeça... e entregou-se à eternidade!


Claro que choramos a partida de um simples animal que se fez nosso amigo muito mais pelo seu papel na criação que pelo reles punhado de ração felina. Os amigos, Deus nos dá. Chegam e enriquecem a nossa vida. E partem deixando um vazio difícil de superar.


Nós o colocamos em uma caixa de sapatos. As flores do nosso jardim o acompanharam na sua derradeira viagem sideral. Baixou à sepultura, no nosso jardim, banhado nas nossas lágrimas. Nos deixou mortos de saudade, o que compartilhamos com os nossos leitores que sabem jamais perder a ternura. Os fatos simples da vida tornam grande a História.


O final? Mais comprometimento com o próximo, com os amigos e com a Natureza. Foi a mensagem e o legado que nos deixou um velho e experiente gato mandado por Deus.

Francisco Nery Júnior 




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1 comentários


F. Nery Jr.

29/06/2020 - 12:26:24

Esta crônica fica dedicada a Pedro Freitas, o maior amigo dos gatos de Paulo Afonso. Parabéns, Pedro, pelo seu amor aos animais. Paulo Afonso agradece.


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