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25.09.2014 | 01:54

 

Alerta: Nascente do Rio São Francisco seca pela primeira vez

O rio vem perdendo forças há muito tempo

Antônio Galdino (pesquisa e texto) com informações dos sites UOL e G1

G1.com
Nascente do rio São Francisco secou.

Nascente do rio São Francisco secou.

No dia em que começam os festejos do novenário de São Francisco de Assis em Paulo Afonso e em centenas de cidades e povoamentos ribeirinhos deste grande manancial das águas sertanejas, chegam as notícias nada alvissareiras que dão conta que a nascente do rio, na Serra da Canastra em Minas Gerais, secou.

A notícia impactante e apreensiva para milhões de brasileiros e a proximidade da data do seu aniversário de 513 anos, nos fez fazer breve pesquisa sobre sua história, sua vida.

O rio São Francisco, descoberto por André Gonçalves e Américo Vespúcio em 04 de Outubro de 1501 é o maior rio totalmente brasileiro. Nasce no chapadão de Zagaia, na Serra da Canastra, em Minas Gerais, corta este Estado, cruza a Bahia, banha terras de Pernambuco e chega ao Oceano Atlântico, entre os Estados de Alagoas e Sergipe, depois de percorrer 2.700 quilômetros, medidos pelo Ministério da Integração Nacional.

Foto João Tavares
Rio São Francisco no canion de Paulo Afonso

Rio São Francisco no canion de Paulo Afonso

 Conhecido por muitos nomes,  desde Opará (grande mar), pelos índios, já foi chamado “rio da unidade nacional” por Euclides da Cunha, “o grande caminho da civilização brasileira”, por João Ribeiro, “rio dos currais” e até de “o Nilo brasileiro”, dentre muitas nomes, todos mostrando a sua importância estratégica para o desenvolvimento do Nordeste e de ligação entre regiões do Brasil.

 Há anos, há séculos, para ser mais realista, que se vem alertando o mundo para os problemas de vazão do rio São Francisco. No livro De Pouso de Boiadas a Redenção do Nordeste, publicado em 1995 por Antônio Galdino e Sávio Mascarenhas, já no primeiro capítulo os autores destacaram a importância do rio São Francisco para a vida do Nordeste e ali foram apresentados textos de grande reportagem feitos naquele ano pelo jornalista César Rocha e pelo fotógrafo Maneco Novais e publicadas em 7 páginas do caderno de economia do Jornal do Commércio do dia 02 de abril de 1995.

Otoniel Fernandes Neto
Ponte D. Pedro II em Paulo Afonso, entre BA e AL - óleo sobre tela

Ponte D. Pedro II em Paulo Afonso, entre BA e AL - óleo sobre tela

 Os jornalistas percorreram 2.600 quilômetros do rio e a reportagem resultante desta viagem foi chamada de “A lenta morte do Rio São Francisco”.

Já bem antes dessa reportagem, o então presidente do Comitê Executivo de Estudos Integrados da Bacia Hidrográfica do São Francisco (Ceeivasf), José Theodomiro de Araújo, apelidado de “Velho do Rio”, já falecido, sempre fez muitas denúncias contra a falta de cuidados com o rio, defendeu ardorosamente a sua revitalização e se colocou contra o processo de transposição do rio.

Em 1999, Otoniel Fernandes Neto documentou a viagem que fez ao rio São Francisco em centenas de fotos transformadas em belíssimas telas reproduzidas no livro-arte Velho Chico – Uma viagem pictórica, produção bilíngüe – português e espanhol que recebeu comentários e apresentações de Rafael Greca Machado (Ministro do Esporte e Turismo), Airson Bezerra Lócio (Presidente da Codevasf), Mozart de Siqueira Campos Araújo (Presidente da Chesf), Eduardo Bagalho Pettengill (Presidente da Infaero), Firmino Ferreira Sampaio Neto (Presidente da Eletrobrás), Paulo Cabral de Araújo (Presidente da Fundação Assis Chateaubriand) e prefácio de Marco Maciel (Vice-Presidente da República).

divulgação
José Theodomiro de Araújo

José Theodomiro de Araújo

 Nesta obra, que mereceu a opinião de tantos importantes da época, o sertanejo José Theodomiro de Araújo, Engenheiro Agrônomo nascido em Petrolina/PE, autor de seis obras, todas sobre o rio São Francisco, Cidadão Baiano, pela Assembléia Legislativa da Bahia, deixou esse recado no depoimento emocionado, que repetiu várias vezes em Paulo Afonso quando esteve nas reuniões promovidas pelo Ministério Público para discutir a transposição do rio São Francisco:

“Está enfraquecido o Velho Chico, e agoniza jurado de morte que foi, pela ganância e inconsciência dos seus próprios filhos. E quando ele morrer, no lugar onde é hoje a cachoeira de Casca D`Anta nós que o amamos, faremos fixar no paredão da serra, o epitáfio: ‘Por aqui passou um rio, que foi destruído por um povo que usou a inteligência para praticar a burrice”.

divulgação
Monografia - Rio São Francisco: a polêmica da transposição (Abril-2007)

Monografia - Rio São Francisco: a polêmica da transposição (Abril-2007)

Na monografia do Curso de Política e Estratégia da ADESG/BA, realizado em Paulo Afonso em 2006 uma equipe, denominada Águas Inquietas, coordenada pelo Professor Antônio Galdino da Silva, e com a participação do então comandante do 20º BPM, José Nilton, do ex-presidente da Câmara Petrônio Barbosa, Prof. Roberto Ricardo, Prof. Nelson Sobreira, José Luciano Júnior, Karine Carvalho e as irmãs Edilma, Elmara e Eliânia Machado Costa, com o tema: Rio São Francisco: a polêmica da transposição, elencou dezenas de depoimentos a favor e contrários a esse processo de transposição do rio.

divulgação
Tese de Mestrado Prof. Antônio Galdino - O Caminho das Águas - Lisboa, 2005.

Tese de Mestrado Prof. Antônio Galdino - O Caminho das Águas - Lisboa, 2005.

 A situação da perda da vazão do rio São Francisco vem se agravando a cada ano. No início desse século 21, a Rede Globo de Televisão exibiu um Globo Repórter sobre o rio São Francisco e o jornalista José Raimundo entrevistou a senhora Luzinete Ferreira Lima, na foz do rio, no povoado Cabeço, totalmente destruído e ouviu dela o seguinte depoimento: “O rio ‘tá sem forças. O mar ´tá dominando o rio”. Simples assim, como são os ribeirinhos do São Francisco. E é fato que a dezenas de quilômetros rio acima a água do São Francisco está misturada com a água salgada do Oceano Atlântico. (Tese de Mestrado – O Caminho das Águas – Antônio Galdino da Silva – Universidade Internacional de Portugal – Lisboa, 2005)

Destacado no livro ANGIQUINHO – 100 anos de História, de Antônio Galdino e João de Sousa Lima, como “o rio das múltiplas grandezas” com a navegação, irrigação, o turismo e produção de energia elétrica produzindo o desenvolvimento regional, esse importante manancial tem obrigado os técnicos a buscarem formas e outras alternativas para não ficarem totalmente dependentes de suas águas.

divulgação
Usinas hidrelétricas Paulo Afonso I, II e III em Paulo Afonso - BA

Usinas hidrelétricas Paulo Afonso I, II e III em Paulo Afonso - BA

 A navegação, inclusive aquela que atende ao turismo, tem sido restrita e até suspensa em vários trechos do rio. A produção de energia elétrica em Paulo Afonso, por exemplo, foi reduzida à metade na dependência do rio São Francisco e tem sido importada. A vazão para movimentar as máquinas das Usinas Paulo Afonso I, II e III, alimentadas pelas águas dos reservatórios de Moxotó e Delmiro Gouveia, que era de 2.100 metros cúbicos de água por segundo, foi reduzida à metade e com isso está funcionando apenas a Usina Paulo Afonso IV. O grande reservatório de Sobradinho, com capacidade de acumular 34 bilhões de metros cúbicos de água está com um terço dessa capacidade, o que também acontece com o reservatório de Itaparica, que tem capacidade para 11 bilhões de metros cúbicos.

Foto Antônio Diniz
Antônio Galdino na Cachoeira de Paulo Afonso

Antônio Galdino na Cachoeira de Paulo Afonso

Com a prioridade, há anos, de se produzir energia elétrica, vital para o desenvolvimento do Nordeste, as barragens de Sobradinho, Itaparica e Moxotó, secaram a Cachoeira de Paulo Afonso e essa queda da vazão, também agravada pela seca de vários afluentes do rio, impediram a aprovação de projeto que possibilitaria a abertura temporária e periódica dessa cachoeira, a única programável do mundo, como incentivo ao crescimento do turismo regional.

foto: Antônio Galdino
Cachoeira seca

Cachoeira seca

Agora, o noticiário da Televisão, os grandes canais de notícias da internet, nos deixam estarrecidos com as imagens da principal nascente do rio São Francisco, a da Serra da Canastra, totalmente seca e a região no seu entorno devastada pelo fogo.

Segundo a notícia veiculada pelo site UOL, pelo G1 e outros (também reproduzido pelo site bobcharles.com.br), o problema atual é a seca e os incêndios e que, com as chuvas, a nascente renascerá mas, sobre a perda de força do rio São Francisco, a luz amarela, vem piscando há muito tempo

Veja a matéria do site UOL. As fotos e o vídeo estão no site G1.com

foto Anna Lúcia Silva - G1
Nascente do rio São Francisco secou.

Nascente do rio São Francisco secou.

 “A nascente do rio São Francisco, que está localizada dentro do Parque Nacional da Serra da Canastra, no sudoeste de Minas Gerais, está seca. Segundo o chefe do parque, diretor Luiz Arthur Castanheira, o evento é inédito e o motivo para isso foi a sucessão de secas que atingem a região há pelo menos três anos.

O parque tem 200 mil hectares de área e preserva, além das nascentes do São Francisco, outros monumentos naturais. Serve como divisor natural de águas das bacias dos rios São Francisco e Paraná.

“É um fenômeno natural que ocorre sempre, diminuindo a quantidade de água. Mas a seca está muito forte este ano. É a primeira vez que as nascentes altas do São Francisco estão secas. O pessoal do parque aqui disse que nunca viu nada igual a isso“, afirmou.

Castanheira afirmou que, apesar da nascente seca, o curso do rio –que se estende por 2.700 km, de Minas até o litoral de Alagoas– não está ameaçado, já que outros rios e riachos o alimentam.

“Aqui, na verdade, é o começo do rio, mas tem muito tributário mais para baixo. Essa nascente seca serve para mostrar como estamos com problemas com a pequena quantidade de água“, disse.

foto Anna Lúcia Silva - G1
Nascente do rio São Francisco secou.

Nascente do rio São Francisco secou.

 Segundo Castanheira, no parque, a nascente é alimentada por pequenos córregos, que vão formando a nascente do principal rio mais importante do semiárido brasileiro.

Segundo o Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco, a bacia do rio corta seis Estados –Bahia, Minas Gerais, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Goiás– e uma pequena parte do Distrito Federal, chegando a 504 municípios. O rio é a única alternativa de água para milhares de pessoas que vivem no semiárido desses Estados.

O rio também é alvo da maior obra do PAC (Programa de Aceleração de Crescimento), com a transposição que constrói dois canais com um total de 477 km, que vão retirar água do rio e levar a 390 municípios do sertão de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará.

Segundo o Ministério da Integração Nacional, as obras físicas do projeto estão 62,4% executadas, e a entrega dos canais deve ocorrer em 2015.

Incêndios

Além da seca, o parque da Serra da Canastra também está sofrendo com os incêndios. Desde o dia 20 agosto, o chefe do parque disse que já foram oito focos registrados. Por conta dos incêndios e de obras na estrada de acesso, o parque foi fechado desde a sexta-feira passada (19) e só deve ser reaberto no dia 6 de outubro. “Isso ocorre em situações em que precisamos preservar a segurança das pessoas que passam por aqui“, alertou.

VEJA O VÍDEO -

http://g1.globo.com/mg/centro-oeste/noticia/2014/09/diretor-de-parque-diz-que-principal-nascente-do-rio-sao-francisco-secou.html

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